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Estudiosa das Tradições e Espiritualidade Femininas, Mitos, Contos de Fadas, Eco-feminismo e outros temas ligados ao Universo das Mulheres. Uma das precursoras e divulgadora da cultura celta e divino feminino no Brasil (há cerca de 17 anos desenvolve trabalhos na área). Em 1999, esteve na Irlanda onde teve a oportunidade de visitar e vivenciar os locais sagrados de nossos ancestrais celtas. Integrante de Tradições Espiritualistas, dentre elas: Druídica (por Emma Restall Orr - Inglaterra) e Alexandrian (por Edmundo Pellizari) e Xamânica Celta (John Matthews - Inglaterra) Nas ARTES: Praticante da Sagrada Dança do Ventre e Yoga. Atualmente estuda o estilo TribalFusion Bellydance. Cantora, baterista e guitarrista.

segunda-feira, junho 21, 2010

A raiva e o perdão - Mulheres que correm com os lobos

A Raiva e os 4 estágios do Perdão
Comentários de Patricia Fox para o trecho do livro “Mulheres que correm com os Lobos” – de Clarissa Pinkola Estès

Clarissa Pinkola Estés foi o “instrumento de confecção” do que eu chamo de uma das “bíblias” da alma feminina, o livro “Mulheres que correm com os Lobos”. Uma obra mágica, cheia de significados e que nos remete à uma navegação profunda pelos contos de fadas e mitos e também nos dá uma oportunidade de revermos nossa realidade e vida prática através da auto-percepção de muitos aspectos de nossa existência.
Em um dos capítulos, ela expõe a questão da fúria, da raiva e do perdão como cura.
Não abrir mão da raiva e da fúria é um fator importante até mesmo para que nos libertemos de nossas antigas dores das quais muitas vezes são despertadas quando nos sentimos ameaçadas. A expressão da raiva “na hora e forma certa” é indicada como um dos caminhos para o amadurecimento e libertação da real causa da raiva... a dor, a mágoa e o medo de ferir-se novamente.
A raiva muitas vezes é identificada com a força e é isso que muitas vezes nos faz agredir, estamos procurando nos defender e como animais que somos, precisamos procurar dentro de nós algo que aparentemente nos dê a impressão de que somos “maiores” ou mais fortes e que assuste o que nos assusta.
Não vou falar dos lobos, vou falar de outro animal que também nos inspira, o cão. Muitas vezes que vemos um cão se arrepiar, arregalar os olhos, mostrar os dentes e latir alto, estamos vendo uma das expressões de medo e necessidade de defesa deste ser. Ora, não será isso que invocamos quando discutimos até mesmo com uma pessoa que amamos? Não será o medo o causador da violência que dedicamos aos nossos amados e muitas vezes à nós mesmas? Creio que sim...
O que quero dizer é que, sim, concordo com a teoria de Clarissa, quando esta diz que a raiva não pode ser e não deve ser reprimida, porque ela é útil, porém é importante que conheçamos o que a causa na profundidade, para que ela seja uma ferramenta de real defesa e não um fogo que protege inicialmente, mas que, ao perdermos o controle do conteúdo, forma e timing na expressão, essa raiva se torne um fogo que pode consumir não só a causa do medo, mas a floresta inteira, ou seja, consome o que nos nutre também.
O que a autora sugere é que o PERDÃO é a ferramenta essencial para administrar a raiva. Ok, mas é tão fácil perdoar o outro e se perdoar? Sim e não.
O primeiro fato a admitir-se é que não perdoamos 100% muitas vezes e que isso é totalmente humano e natural. Porque perdoar não é pedir ou aceitar desculpas simplesmente, mas sim a capacidade de transformar e curar o que sentimos à respeito de uma situação ou pessoa (que pode ser nós mesmas muitas vezes) que de alguma forma no feriu intencionalmente ou não.
A mágica do texto de Clarissa é que ela coloca de forma sensível e franca que o processo do perdão não é tão simples assim – o que a maioria das pessoas que está lendo esse texto deve concordar – perdoar dá trabalho e requer treino, prática e perseverança.
A sugestão é que sigamos uma espécie de jornada pelos quatro estágios de perdoar.
Vou simplesmente reproduzir o texto a partir daqui.
texto retirado das páginas 456 à 461 da edição brasileira. As notas foram colocadas no corpo do texto para facilitar a leitura.

OS QUATRO ESTÁGIOS DO PERDÃO
1. DEIXAR PASSAR – deixar a questão e paz
2. CONTROLAR-SE – renunciar á punição
3. ESQUECER – afastar da memória, recusar-se a repisar
4. PERDOAR - o abandono da dívida

DEIXAR PASSAR
(Nota: FOREGO – Oxford English Dictionary: do inglês antigo forgán ou forgáen, passar por algo, ir embora)
Para se começar a perdoar, é bom deixar passar algum tempo. Ou seja, é bom deixar de pensar provisoriamente na pessoa ou no acontecimento. Não se trata de deixar algo por fazer, mas assemelha-se a tirar umas férias do assunto. Isso ajuda a evitar que fiquemos exaustas, permite que nos fortaleçamos por outros meios, que tenhamos outras alegrias na vida.
Esse estágio é um bom treino para o abandono definitivo que mais adiante advirá do perdão. Deixe a situação, a recordação, o assunto, tantas vezes for necessário. A idéia não é fechar os olhos, mas a de adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar envolve voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender a amar algo que a fortaleça e deixar que o tema saia do primeiro plano por um tempo. Isso é bom e medicinal. As questões de danos passados irão atormentar a mulher muito menos se ela garantir à psique ferida que lhe aplicará bálsamos medicinais agora e que mais tarde tratará do assunto de quem provocou a ferida.

CONTROLAR-SE
(Nota: FOREBEAR – Oxford English Dictionary: do alto alemão médio verbern, suportar, ter paciência)

A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido de abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja em termos grandes, seja em termos pequenos. É de extrema utilidade prática desse tipo de refreamento, pois ele aglutina a questão num único ponto em vez de permitir que ela se espalhe por toda a parte. Essa atitude concentra a atenção para a hora em que a pessoa se dirigir aos próximos passos. Ela não quer dizer que a pessoa deva ficar cega, entorpecida ou que perca a vigilância protetora. Ela pretende conferir um prazo à situação para ver como isso ajuda.
Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção. Esses são medicamentos poderosos. Faça tanto quanto puder. Esse é um regime de purificação. Você não precisa fazer tudo; você pode escolher um aspecto, como o da paciência, e praticá-lo. Você pode abster de palavras, de resmungos punitivos, de agir de modo hostil, ressentido. Ao evitar punições desnecessárias, você estará reforçando a integridade da alma e da ação. Controlar-se é praticar a generosidade, permitindo, assim, que a grande natureza compassiva participe de questões que anteriormente geraram emoções que iam desde a ínfima irritação até a fúria.

ESQUECER
(Nota: FORGET – Oxford English Dictionary: do teutônico antigo getan, segurar ou apreender, com o prefixo for, significa não segurar ou não apreender)

Esquecer significa afastar da lembrança, recusar-se a reprisar um assunto, em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória. Esquecer não quer dizer entorpecer o cérebro. O esquecimento consciente consiste em deixar de lado o acontecimento, não insistir para que ele permaneça no primeiro plano, mas permitir que ele seja relegado ao plano de fundo ou mesmo que saia do palco.
Praticamos o esquecimento consciente quando nos recusamos a invocar o material inflamável, quando nos recusamos a mergulhar em recordações. Esquecer é uma atividade, não uma atitude passiva. Significa não trazer certos materiais à superfície, nem revirá-los constantemente, nem se irritar com pensamentos, imagens ou emoções repetitivas. O esquecimento consciente significa a determinação de abandonar a prática obsessiva, de ultrapassar a situação e perde-la de vista, sem olhar para trás, vivendo, portanto, uma nova paisagem, criando vida e experiências novas em que pensar no lugar das antigas. Esse tipo de esquecimento não apaga a memória; ele simplesmente enterra as emoções que cercavam a memória.

PERDOAR
(Nota: FORGIVE – Oxford English Dictionary: do inglês antigo forziefan ,dar ou ceder, desistir, deixar de guardar ressentimento)

Existem muitos meios e proporções pelos quais se perdoa uma pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um perdão “final” não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da determinação de retaliar. É você quem decide quando perdoar e o ritual a ser usado para assinalar o evento. É você quem resolve qual é a dívida que você agora afirma não precisar mais ser paga.
Algumas pessoas optam pelo perdão total: libertando a pessoa de qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a reparação no meio, abandonando a dívida, alegando que o que está feito está feito e a compensação já é suficiente. Outro tipo de perdão consiste em isentar a pessoa sem que ela tenha feito qualquer reparação emocional ou de outra natureza.
Para certas pessoas, finalizar o perdão significa considerar o outro com indulgência, e isso é mais fácil quando as ofensas são relativamente leves. Uma das formas mais profundas de perdão está em dar ajuda compassiva ao ofensor por um ou outro meio. Isso não quer dizer que você deva enfiar a cabeça no ninho da cobra, mas, sim, ser sensível a partir de uma postura de compaixão, segurança e preparo*.

(*Nota: Não são só as pessoas que tem ritmos diferentes para perdoar; também o tipo de ofensa afeta o tempo necessário para o perdão. Perdoar um mal-entendido e diferente de perdoar um assassinato, um incesto, uma violência, um tratamento injusto, uma traição, um roubo. Dependendo da sua natureza, maus tratos isolados podem às vezes ser perdoados com mais facilidade do que maus-tratos repetidos.)

O perdão é onde vão culminar toda a abstenção, o controle e o esquecimento. Não significa abdicar da própria proteção, mas da própria frieza. Uma forma profunda de perdão consiste em deixar de excluir o outro, o que significa deixar de mantê-lo à distância, de ignorá-lo, de agir com frieza, condescendência e falsidade. É melhor para a psique da alma restringir ao máximo o tempo de exposição às pessoas que são difíceis para você do que agir como um robô insensível.

O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chance – começa tudo de novo se acontecer outro incidente. Você pode dar só mais uma chance, dar muitas chances, dar chances só se... Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.*
(Nota: Como também o corpo tem memória, ele também deve receber atenção. A idéia é não tentar correr mais do que a raiva, mas esgotá-la, decompô-la e reelaborar a libido que é, assim, liberada de um modo totalmente diferente do que antes. Esse alívio físico presa ser acompanhado de compreensão psíquica.)

Como a mulher sabe que perdoou? Você passa a sentir tristeza a respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da pessoa em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a respeito daquilo tudo. Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você prefere se manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Não há no seu tornozelo nenhuma armadilha de laço que se estende desde lá longe até aqui. Você está livre para ir e vir.

Pode ser que tudo não tenha acabado em “VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE”, mas sem a menor dúvida existe de hoje em diante um novo “ERA UMA VEZ” à sua espera.
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O livro “Mulheres que Correm com Lobos” está editado pela Rocco e é um dos títulos imprescindíveis para se trabalhar e nutrir o FEMININO ESSENCIAL.
Em agosto iniciarei um novo curso baseado na vivência dos mitos femininos (e masculinos). Em breve divulgarei os detalhes!
Beijos e caminhada florida!
P.

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