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Estudiosa das Tradições e Espiritualidade Femininas, Mitos, Contos de Fadas, Eco-feminismo e outros temas ligados ao Universo das Mulheres. Uma das precursoras e divulgadora da cultura celta e divino feminino no Brasil (há cerca de 17 anos desenvolve trabalhos na área). Em 1999, esteve na Irlanda onde teve a oportunidade de visitar e vivenciar os locais sagrados de nossos ancestrais celtas. Integrante de Tradições Espiritualistas, dentre elas: Druídica (por Emma Restall Orr - Inglaterra) e Alexandrian (por Edmundo Pellizari) e Xamânica Celta (John Matthews - Inglaterra) Nas ARTES: Praticante da Sagrada Dança do Ventre e Yoga. Atualmente estuda o estilo TribalFusion Bellydance. Cantora, baterista e guitarrista.

segunda-feira, junho 21, 2010

A raiva e o perdão - Mulheres que correm com os lobos

A Raiva e os 4 estágios do Perdão
Comentários de Patricia Fox para o trecho do livro “Mulheres que correm com os Lobos” – de Clarissa Pinkola Estès

Clarissa Pinkola Estés foi o “instrumento de confecção” do que eu chamo de uma das “bíblias” da alma feminina, o livro “Mulheres que correm com os Lobos”. Uma obra mágica, cheia de significados e que nos remete à uma navegação profunda pelos contos de fadas e mitos e também nos dá uma oportunidade de revermos nossa realidade e vida prática através da auto-percepção de muitos aspectos de nossa existência.
Em um dos capítulos, ela expõe a questão da fúria, da raiva e do perdão como cura.
Não abrir mão da raiva e da fúria é um fator importante até mesmo para que nos libertemos de nossas antigas dores das quais muitas vezes são despertadas quando nos sentimos ameaçadas. A expressão da raiva “na hora e forma certa” é indicada como um dos caminhos para o amadurecimento e libertação da real causa da raiva... a dor, a mágoa e o medo de ferir-se novamente.
A raiva muitas vezes é identificada com a força e é isso que muitas vezes nos faz agredir, estamos procurando nos defender e como animais que somos, precisamos procurar dentro de nós algo que aparentemente nos dê a impressão de que somos “maiores” ou mais fortes e que assuste o que nos assusta.
Não vou falar dos lobos, vou falar de outro animal que também nos inspira, o cão. Muitas vezes que vemos um cão se arrepiar, arregalar os olhos, mostrar os dentes e latir alto, estamos vendo uma das expressões de medo e necessidade de defesa deste ser. Ora, não será isso que invocamos quando discutimos até mesmo com uma pessoa que amamos? Não será o medo o causador da violência que dedicamos aos nossos amados e muitas vezes à nós mesmas? Creio que sim...
O que quero dizer é que, sim, concordo com a teoria de Clarissa, quando esta diz que a raiva não pode ser e não deve ser reprimida, porque ela é útil, porém é importante que conheçamos o que a causa na profundidade, para que ela seja uma ferramenta de real defesa e não um fogo que protege inicialmente, mas que, ao perdermos o controle do conteúdo, forma e timing na expressão, essa raiva se torne um fogo que pode consumir não só a causa do medo, mas a floresta inteira, ou seja, consome o que nos nutre também.
O que a autora sugere é que o PERDÃO é a ferramenta essencial para administrar a raiva. Ok, mas é tão fácil perdoar o outro e se perdoar? Sim e não.
O primeiro fato a admitir-se é que não perdoamos 100% muitas vezes e que isso é totalmente humano e natural. Porque perdoar não é pedir ou aceitar desculpas simplesmente, mas sim a capacidade de transformar e curar o que sentimos à respeito de uma situação ou pessoa (que pode ser nós mesmas muitas vezes) que de alguma forma no feriu intencionalmente ou não.
A mágica do texto de Clarissa é que ela coloca de forma sensível e franca que o processo do perdão não é tão simples assim – o que a maioria das pessoas que está lendo esse texto deve concordar – perdoar dá trabalho e requer treino, prática e perseverança.
A sugestão é que sigamos uma espécie de jornada pelos quatro estágios de perdoar.
Vou simplesmente reproduzir o texto a partir daqui.
texto retirado das páginas 456 à 461 da edição brasileira. As notas foram colocadas no corpo do texto para facilitar a leitura.

OS QUATRO ESTÁGIOS DO PERDÃO
1. DEIXAR PASSAR – deixar a questão e paz
2. CONTROLAR-SE – renunciar á punição
3. ESQUECER – afastar da memória, recusar-se a repisar
4. PERDOAR - o abandono da dívida

DEIXAR PASSAR
(Nota: FOREGO – Oxford English Dictionary: do inglês antigo forgán ou forgáen, passar por algo, ir embora)
Para se começar a perdoar, é bom deixar passar algum tempo. Ou seja, é bom deixar de pensar provisoriamente na pessoa ou no acontecimento. Não se trata de deixar algo por fazer, mas assemelha-se a tirar umas férias do assunto. Isso ajuda a evitar que fiquemos exaustas, permite que nos fortaleçamos por outros meios, que tenhamos outras alegrias na vida.
Esse estágio é um bom treino para o abandono definitivo que mais adiante advirá do perdão. Deixe a situação, a recordação, o assunto, tantas vezes for necessário. A idéia não é fechar os olhos, mas a de adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar envolve voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender a amar algo que a fortaleça e deixar que o tema saia do primeiro plano por um tempo. Isso é bom e medicinal. As questões de danos passados irão atormentar a mulher muito menos se ela garantir à psique ferida que lhe aplicará bálsamos medicinais agora e que mais tarde tratará do assunto de quem provocou a ferida.

CONTROLAR-SE
(Nota: FOREBEAR – Oxford English Dictionary: do alto alemão médio verbern, suportar, ter paciência)

A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido de abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja em termos grandes, seja em termos pequenos. É de extrema utilidade prática desse tipo de refreamento, pois ele aglutina a questão num único ponto em vez de permitir que ela se espalhe por toda a parte. Essa atitude concentra a atenção para a hora em que a pessoa se dirigir aos próximos passos. Ela não quer dizer que a pessoa deva ficar cega, entorpecida ou que perca a vigilância protetora. Ela pretende conferir um prazo à situação para ver como isso ajuda.
Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção. Esses são medicamentos poderosos. Faça tanto quanto puder. Esse é um regime de purificação. Você não precisa fazer tudo; você pode escolher um aspecto, como o da paciência, e praticá-lo. Você pode abster de palavras, de resmungos punitivos, de agir de modo hostil, ressentido. Ao evitar punições desnecessárias, você estará reforçando a integridade da alma e da ação. Controlar-se é praticar a generosidade, permitindo, assim, que a grande natureza compassiva participe de questões que anteriormente geraram emoções que iam desde a ínfima irritação até a fúria.

ESQUECER
(Nota: FORGET – Oxford English Dictionary: do teutônico antigo getan, segurar ou apreender, com o prefixo for, significa não segurar ou não apreender)

Esquecer significa afastar da lembrança, recusar-se a reprisar um assunto, em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória. Esquecer não quer dizer entorpecer o cérebro. O esquecimento consciente consiste em deixar de lado o acontecimento, não insistir para que ele permaneça no primeiro plano, mas permitir que ele seja relegado ao plano de fundo ou mesmo que saia do palco.
Praticamos o esquecimento consciente quando nos recusamos a invocar o material inflamável, quando nos recusamos a mergulhar em recordações. Esquecer é uma atividade, não uma atitude passiva. Significa não trazer certos materiais à superfície, nem revirá-los constantemente, nem se irritar com pensamentos, imagens ou emoções repetitivas. O esquecimento consciente significa a determinação de abandonar a prática obsessiva, de ultrapassar a situação e perde-la de vista, sem olhar para trás, vivendo, portanto, uma nova paisagem, criando vida e experiências novas em que pensar no lugar das antigas. Esse tipo de esquecimento não apaga a memória; ele simplesmente enterra as emoções que cercavam a memória.

PERDOAR
(Nota: FORGIVE – Oxford English Dictionary: do inglês antigo forziefan ,dar ou ceder, desistir, deixar de guardar ressentimento)

Existem muitos meios e proporções pelos quais se perdoa uma pessoa, uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um perdão “final” não é uma capitulação. É uma decisão consciente de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da determinação de retaliar. É você quem decide quando perdoar e o ritual a ser usado para assinalar o evento. É você quem resolve qual é a dívida que você agora afirma não precisar mais ser paga.
Algumas pessoas optam pelo perdão total: libertando a pessoa de qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a reparação no meio, abandonando a dívida, alegando que o que está feito está feito e a compensação já é suficiente. Outro tipo de perdão consiste em isentar a pessoa sem que ela tenha feito qualquer reparação emocional ou de outra natureza.
Para certas pessoas, finalizar o perdão significa considerar o outro com indulgência, e isso é mais fácil quando as ofensas são relativamente leves. Uma das formas mais profundas de perdão está em dar ajuda compassiva ao ofensor por um ou outro meio. Isso não quer dizer que você deva enfiar a cabeça no ninho da cobra, mas, sim, ser sensível a partir de uma postura de compaixão, segurança e preparo*.

(*Nota: Não são só as pessoas que tem ritmos diferentes para perdoar; também o tipo de ofensa afeta o tempo necessário para o perdão. Perdoar um mal-entendido e diferente de perdoar um assassinato, um incesto, uma violência, um tratamento injusto, uma traição, um roubo. Dependendo da sua natureza, maus tratos isolados podem às vezes ser perdoados com mais facilidade do que maus-tratos repetidos.)

O perdão é onde vão culminar toda a abstenção, o controle e o esquecimento. Não significa abdicar da própria proteção, mas da própria frieza. Uma forma profunda de perdão consiste em deixar de excluir o outro, o que significa deixar de mantê-lo à distância, de ignorá-lo, de agir com frieza, condescendência e falsidade. É melhor para a psique da alma restringir ao máximo o tempo de exposição às pessoas que são difíceis para você do que agir como um robô insensível.

O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a próxima vez, perdoar mas não dar outra chance – começa tudo de novo se acontecer outro incidente. Você pode dar só mais uma chance, dar muitas chances, dar chances só se... Você pode perdoar uma ofensa em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente. Você decide.*
(Nota: Como também o corpo tem memória, ele também deve receber atenção. A idéia é não tentar correr mais do que a raiva, mas esgotá-la, decompô-la e reelaborar a libido que é, assim, liberada de um modo totalmente diferente do que antes. Esse alívio físico presa ser acompanhado de compreensão psíquica.)

Como a mulher sabe que perdoou? Você passa a sentir tristeza a respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da pessoa em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a respeito daquilo tudo. Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você prefere se manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Não há no seu tornozelo nenhuma armadilha de laço que se estende desde lá longe até aqui. Você está livre para ir e vir.

Pode ser que tudo não tenha acabado em “VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE”, mas sem a menor dúvida existe de hoje em diante um novo “ERA UMA VEZ” à sua espera.
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O livro “Mulheres que Correm com Lobos” está editado pela Rocco e é um dos títulos imprescindíveis para se trabalhar e nutrir o FEMININO ESSENCIAL.
Em agosto iniciarei um novo curso baseado na vivência dos mitos femininos (e masculinos). Em breve divulgarei os detalhes!
Beijos e caminhada florida!
P.

Gatos - A longa e (incompleta) domesticação

Amoras,
Que muitas deusas primitivas estão ligadas intimamente com os gatos (e gatas), muitas de nós sabemos.
Que muitos gatos (e gatas) foram queimados nas fogueiras na infame inquisição, também sabemos...
Que mulheres poderosas (ainda que no imaginário limitado muitas vezes dos homens) são idenficadas com GATAS, isso chega a ser óbvio..
Pois bem... leiam a (enormeeee) matéria na revista Scientif American sobre a história da domesticação dos gatos e das explicações (quase todas muito interessantes) sobre a "não perda" do instinto desses FABULOSOS FELINOS! O link segue abaixo.


Adóóóóóróóóóó!

Enjoy it!
Beijos e caminhada florida (e com garras afiadas, né?rs)
Pat Cat (ou melhor, Fox) ;)


http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/a_longa_e__incompleta__domesticacao_do_gato.html

Gino-Ecologia

Amoras,
Abaixo um artigo deveras interessante do Dr Eliezer Berenstein, ginecologista e autor de uma das maiores referencias bibliograficas do meu trabalho, o livro INTELIGÊNCIA HORMONAL DA MULHER.
Espero que aproveitem :)
beijos e caminhada florida
P.


A Gino-Ecologia
Por Eliezes Berenstein
Fonte: http://www.tpm.com.br/ler_artigo.asp?cod=2 - acesso em 2 de julho 2009

Uma nova consciência, quase uma religião, surgiu nos últimos tempos. A consciência de que o homem estabeleceu uma relação de domínio sobre a Terra e sobre todos outros animais. Mas desviou seu caminho, para a destruição do meio ambiente e sua quase própria auto-destruição. É a base desta nova re-ligaçao. A ecologia deu esta consciência a uma parte da humanidade, mas não modificou seu caminho.

Amar a divindade que existe no cosmos e no interior de cada um de nós é o objetivo de muitas religiões, mas deveria ser mais do que isso. Deveria ser uma política. Transcender as questões da ecologia superficial ou ambientalista, a ecologia espiritual humanista, passar pela revolução feminista, iniciada no século passado e em busca de novos caminhos neste século.

Dentro destas correntes, a ginecologia, nome da ciência médica que tratava das questões das mulheres, em seus aspectos físicos orgânicos, transmutou-se para a feminologia, uma nova filosofia existencial e de abordagem do ser feminino.

Se o ser humano é o mais alto ponto evolutivo da natureza, a mulher é seu cume. A feminilidade não é um mal a ser dominado. A fertilidade deve ser uma decisão individual de cada mulher, assim como a manutenção da qualidade de vida na terceira idade é seu direito inalienável.

Seus hormônios, produtos de suas glândulas femininas, fontes de sua inspiração e espírito, alquimia mágica que as diviniza ou enfeitiça são hoje conhecidos da CIÊNCIA e de domínio de grande parte da humanidade. Mas a ciência tem tentado manipulá-los de forma leviana e destrutiva. Consumí-los sem consciência, seria um caminho para o suicídio da feminilidade.

O que não se pode é pagar o preço alto dos cânceres ou acidentes tromboembólicos provindos de seu uso indiscriminado, ligado ao uso anti ecológico de hormônios manipulados, com fins lucrativos ou diversos ao bem da humanidade.

Ao influenciar os nossos próprios hormônios para o bem estar e os mais altos fins ideais femininos, gerenciar o que nos é oferecido como medicamento de forma ética, harmonizando corpo-mente e cosmos, é praticar a gino-ecologia.

Ser a mestre de si mesma e de seus hormônios, criando a sabedoria feminina é reinterpretar o Genesis, dando à mulher seu verdadeiro papel divino.

Nós não "escutamos" nossos hormônios, pois nós lhe abrimos qualquer espaço para que isso ocorra. Vivemos num ensurdecedor barulho da mídia, dos carros e dos compromissos, que tudo esconde do que vem do íntimo de nós mesmos. A natureza ama esconder-se.

Eles, nossos hormônios, não emitem somente sinais, emitem ordens. O código dos hormônios necessita de "voz do oráculo" que abre espaço para a auto-expressão hormonal. É a heteronomia contrária a auto-nomia. É a dominação do dever, sobre o ser.

Os hormônios são parte da definição da vida. São a voz da natureza de D’us no sentido da liberdade consciente. Aparecem para nós fragmentados. Precisamos redirecioná-los através de nosso livre arbítrio. O estro direcionando à feminilidade. O gestageno direcionando à maternidade. O Andro direcionando à competição.

Para tê-los é preciso refletir concretamente e sentir seus sinais no presente. Aparecer, mostrar seu brilho na pele no desejo, no ser consciente do QH. Eles nos dão sinais, indicam os caminhos. Nós decidimos.

A feminilidade no terceiro milênio:
- A sexualidade do III milênio será o produto da Revolução hormonal em curso no século XX.
- A idade da menarca, a queda dos índices de fertilidade e o aumento da expectativa de vida mudarão o perfil da humanidade.
- Novas doenças como a TPM, a endometriose ou climatério descondensado, ainda sem solução.
- Novas drogas hormonais ou não.
- Níveis de stress.
- Tipos de relacionamentos.
- Descaminhos da cirurgia ginecológica.
- Reprodução assistida.
Amoras,

Quem nunca sofreu (um pouquinho que seja) com essa vilã que só espera uma distração do nosso guerreiro sistema imunológico para nos invadir?
A Sonia Hirsch além de manjar tudo da santa cozinha, conhece o que nos nutre!
Abaixo uma pesquisa dela com dicas muito interessantes...
Beijos e caminhada florida pra todas nós!
P.


CANDIDÍASE

Nunca ouviu falar nisso antes? Mas já sentiu, com certeza, pois quase toda mulher sofreu pelo menos um ataque de monília na vida - aquele corrimento que coça infernalmente e tem aspecto de leite talhado. Quem o produz é um fermento que atende por Candida albicans, mora nas nossas entranhas e aproveita qualquer oportunidade para se multiplicar, produzindo corrimento, sapinho e assadura. Só que, se a sua imunidade estiver baixa e a alimentação pobre, a cândida prolifera a ponto de se espalhar pelo organismo todo, provocando alergias, dores abdominais, garganta seca, insônia, queda de cabelo, estragos nas unhas, enxaqueca, hipoglicemia e mil coisas mais. É a candidíase polissistêmica, e significa que você entrou numa fria.

Trata daqui e dali, toma isto e aquilo, passa e bota e aplica esta e aquela e a outra, e a cândida pula que nem pipoca: aqui, ali, acolá. Incógnita. Ninguém sabe, ninguém viu, tudo parece outra coisa. A enxaqueca deve ser do fígado, o corrimento é culpa dos hormônios, a cólica e os gases vêm de alguma coisa que você comeu, a alergia é de família. Assim vai se instalando um inferninho particular que deixa você indisposta e com fama de hipocondríaca. Fora o fato de que uma candidíase pode botar o seu tesão a nocaute e mil grilos na cuca da pessoa amada!

- Ah, mas eu nem tenho corrimento..., diz você. Não? Nem precisa. Vaginite é apenas um dos sintomas visíveis da cândida. Veja os outros:

no sistema gastrointestinal dá sapinho, flatulência, gases, cólicas, cólon irritável, coceira ou queimação anal, intestino irregular, garganta seca

no sistema geniturinário dá vaginite e infecções das vias urinárias

no sistema endócrino mexe com a menstruação das formas mais diversas

no sistema nervoso dá depressão, irritabilidade, insônia e dificuldade de concentração

no sistema imunológico dá alergia, sensibilidade a produtos químicos e função imunológica diminuída

e de modo geral está ligada a fadiga crônica, falta de energia, mal-estar e perda da libido.

Quem são as vítimas prediletas: mulheres, 60% dos casos; homens, 20%; crianças de ambos os sexos, 20%. Ou seja, nós garotas somos a esmagadora maioria, o que se atribui à maior complexidade do nosso sistema hormonal.

Quais os fatores que predispõem à coisa? Antibióticos, pílulas anticoncepcionais, corticosteróides, drogas contra úlceras; insuficiência de secreções digestivas, de enzimas pancreáticas e de substâncias que promovem o fluxo de bile; insuficiência hepática; excesso de açúcar, carboidratos em geral e álcool na dieta.

Diagnóstico: dificílimo, exatamente porque os sintomas confundem o raciocínio das médicas. Claro que você pode fazer um exame de fezes que procure a cândida e testes cutâneos e sanguíneos para ver se há sinal de anticorpos. Mas pode ganhar tempo respondendo aos questionários da página 219 do livro, que traçam um histórico da sua saúde e estabelecem um perfil sobre o qual você e sua médica podem começar a conversa. Eles estão disponíveis em PDF; baixe aqui. Para abrir você vai precisar do Adobe Acrobat Reader. Se não o tiver, baixe grátis em http://get.adobe.com/br/reader/ .

COMO TRATAR?

O tratamento deve fazer três coisas: controlar a exuberância da cândida, matar os fungos que se espalharam pelo corpo e fortalecer o seu sistema imunológico para que ele volte a trabalhar direito.

A cândida sobrevive basicamente dos açúcares da nossa alimentação, e lambe os beiços cada vez que pode engolir uma celulazinha morta por falta de vitaminas e sais minerais. Seu ideal é que a gente tome refrigerantes de manhã, almoce sanduíche e sorvete, jante biscoitos com queijo e coma mil balas, biscoitos e chocolates nos intervalos. Como esse tipo de comida desnutre, vamos matando células - que a cândida, glup!, engole para ficar bela e prolífica. Portanto, para começar a se livrar dela você tem que se fortalecer e deve evitar durante algum tempo: açúcar, pão, bolo, biscoito, gordura, queijos fermentados, cereais refinados e suas farinhas, batatas de todos os tipos, nozes, frutas secas, frutas doces, suco de laranja, vinagre, qualquer coisa que contenha fermento, levedo de cerveja, bebidas alcoólicas, chocolate, café, chá preto...

MAS O QUE É QUE EU VOU COMER?

carnes de todos os tipos, mas prefira as brancas, de peixes e aves

ovos cozidos, quentes, pochês, mexidos com água, nunca fritos

vegetais sem amido: cenoura, abóbora, nabo comprido, rabanete, chuchu, vagem, quiabo, jiló, maxixe, pepino, aipo, celeríaco (raiz-de-aipo), funcho, cebola, alho, gengibre, alho-poró, brotos de alfafa, de feijão, de bambu, tomate (descasque! 50 pulverizações de inseticida por safra), pimentões e berinjelas (com moderação)... e todas as folhas: repolho, acelga, couve, chicória, alface, agrião, caruru, espinafre... e algas marinhas, que, além de muito nutritivas, rejuvenescem e matam fungos!
Candidíase, hipoglicemia e hipotiroidismo também podem estar ligados à carência de um poderoso fator de equilíbrio para a saúde: iodo.

Iodo é um mineral especialmente concentrado nos hormônios da tireóide, que controlam a taxa metabólica, o crescimento, a reprodução, a formação de células sanguíneas, as funções nervosas e musculares e a temperatura corporal. Como a distribuição de iodo no meio ambiente é desigual, certas áreas, sobretudo as mais distantes do mar, produzem alimentos que não fornecem iodo em quantidade suficiente ao ser humano; isso gera doenças características de disfunção da tireóide, como bócio, ou papada, e retardamento mental; por isso decidiu-se acrescentar iodo ao sal de cozinha. Em 1983 havia 400 milhões de pessoas com carência de iodo nas regiões mais pobres do mundo, e 112 milhões nas regiões mais ricas. Por outro lado, doses excessivas de iodo também podem deprimir a atividade da tireóide, produzindo sintomas semelhantes aos da carência. SINAIS DE ALARME: fome descontrolada, aumento de peso, ansiedade, taquicardia, suores, proeminência dos olhos.

A recomendação diária para iodo é de 0.15 a 0.20 mg. Mas pesquisadores atentos como o professor José Luiz Garcia, de SP, observam que a dose satisfatória de iodo na alimentação deveria ser pautada pelo consumo japonês, que é quase 100 vezes isso: 15 a 18 mg de iodo diários.

Essa alta dosagem pode ser facilmente obtida pelo consumo diário de algas kombu, ágar-ágar, arame ou hijiki (veja receita abaixo). Corresponde a 2 a 3 gotas de iodo em solução de Lugol (5% de iodo, 10% de iodeto de potássio e 85% de água).

O iodo é um poderoso fungicida, e a alga kombu também. Daí sua extrema importância na candidíase.


AS FONTES ALIMENTARES MAIS RICAS EM IODO
medida peso alimento mg
10 g ALGA KOMBU (LAMINARIA SP.) 19.0 a 47.0
10 g ALGA ÁGAR-ÁGAR (GELIDIUM SP.) 16.0
10 g ALGA ARAME (EISENIA BICYCLIS) 10.0 a 56.0
10 g ALGA HIJIKI (HIZIKIA FUSIFORME) 4.0
10 g ALGA WAKAME (UNDARIA PINNATIFIDA) 1.8 a 3.5
100 g CHONDRUS OCELLATUS 1.0
100 g ALGA NORI (PORPHYRA TENERA) 0.5
1 c chá 6 g SAL IODADO 0.4
100 g MARISCOS/MOLUSCOS 0.3
100 g CRUSTÁCEOS 0.2
100 g HADDOCK 0.14 a 0.2
1 c chá 6 g SAL COMUM .1

RADIATIVIDADE: Níveis ótimos de iodo evitam que o radiativo iodo-131 se instale na tireóide e nos órgãos reprodutivos.

Uma boa forma de consumir alga kombu: corte com uma tesoura um pedaço de mais ou menos 3 x 3 cm de alga kombu e limpe com um pincel para tirar resíduos. Não se incomode com a poeirinha esbranquiçada que ela tem, são sais. Ponha de molho em 1/2 copo de água sem cloro (mineral ou de fonte). Em 60 minutos a água vai estar esverdeada. Retire a alga, aqueça o caldo e beba. Pique a alga em pedacinhos miúdos e misture no feijão, no arroz, no refogado. O alho ligeiramente refogado em azeite ajuda muito a melhorar seu sabor.

Algas arame e hijiki devem ser lavadas rapidamente sob a torneira, dentro de uma peneirinha, ficam de molho meia hora em pouquinha água e podem ser refogadas como qualquer outro vegetal.

voltando à dieta:

pode incluir na refeição duas ou 3 colheres de arroz integral, se der muita vontade, mas aí o tratamento é mais lento. Painço, por ser mais alcalino, é um cereal mais indicado para esse quadro.

frutas só as menos doces - goiaba, tamarindo, melancia, pêra, e assim mesmo só no intervalo entre as refeições, nunca de sobremesa; muito limão pra pingar na água, nas saladas e verduras

manteiga sem sal para colocar no seu ovinho e derreter sobre os seus legumes. A manteiga é tida pelos médicos ayurvedas como uma gordura de ótima qualidade, desde que, evidentemente, seja de boa procedência e não esteja rançosa - só compre fresquinha e guarde na geladeira, numa embalagem que impeça a entrada de ar e o contato com a luz. Se a sua taxa de colesterol for alta, esta dieta provavelmente vai fazer com que ela desça a níveis normais: açúcar e frutose são mais formadores de colesterol no sangue que o próprio colesterol dos ovos e da manteiga
óleo extravirgem de coco (prensado a frio) é a melhor gordura para quem tem candidíase, pois contém ácido caprílico e quase 50% de ácido láurico, que combatem com eficácia qualquer fungo - além de vírus, vermes e bactérias em geral - e aumentam a imunidade. Pode ser consumido puro, uma colher de sopa de manhã, em jejum, e outra ao deitar, ou substituir azeite e manteiga no dia a dia. Também é maravilhoso na pele e nos cabelos. Entre os dedos do pé, cura e evita frieiras.

É gordura saturada sim, mas inteiramente do bem. Não sobrecarrega o fígado e ajuda a baixar o colesterol e os triglicerídios. Também contribui muito para regular a tireóide.

Há um efeito chamado die off ou reação de Herxeimer depois de se usar o óleo de coco por um tempo: o lixo qchega à corrente sanguínea e produz certo mal estar antes de ser eliminado pelos intestinos e rins. Mais uma razão para beber bastante água, com gotinhas de limão.

Você pode fazer o óleo em casa a partir do leite de coco fresco, que deixa fermentar por 36 horas. O creme oleoso sobe, você retira com uma colher e leva ao fogo em banho-maria (ou seja, o creme fica dentro de uma vasilha que por sua vez está dentro de uma panela com água fervendo) para ele acabar de "limpar". É útil inclusive para passar na vulva e na vagina.

SERVIÇO:
ONDE ENCONTRAR UM BOM ÓLEO DE COCO

Leia a crônica Só dá coco!, de Sonia Hirsch

pouco sal, já que sua dieta será muito rica em sódio devido às proteínas animais; não convém fazer retenção de líquidos por excesso de sal

pepino e melancia refrescam e ajudam o corpo a eliminar água, o que é ótimo, já que você precisa se desintoxicar. Depois de comer a melancia, corte a casca, ferva e tome como chá. É um poderoso diurético, tanto que não deve ser tomado à noite para não perturbar o sono

água, muita água, se possível de fonte, para você evitar a contaminação da que vem pelos canos e os fungos que talvez povoem a talha ou o filtro

chás para o fígado são essenciais, já que você está matando fungos a torto e a direito e é o fígado quem lida com os restos; camomila é especialmente indicada contra cândida

suplementos também são muito importantes, uma vez que a sua dieta será restrita; sua médica poderá lhe dizer a fórmula, que deve conter ferro, cobre, zinco e selênio quelados, complexo B (com ênfase na vitamina B6/piridoxina), vitaminas C, E e betacaroteno. A biotina, uma das vitaminas do complexo B, ajuda a evitar a conversão da levedura em fungo invasivo

pólen de abelhas contém muitos nutrientes, inclusive proteínas, e pode ser a base de um lanchinho: coma 1 colher de sopa, deixando dissolver devagar na boca

iogurte desnatado, natural, artesanal, que você pode comprar em embalagem de litro, se na embalagem estiver escrito "contém lactobacilos vivos", ou fazer em casa com leite desnatado e lactobacilos encontráveis em lojas de produtos naturais (Rich é uma boa marca, ou use as cápsulas importadas que contenham acidófilos e bífidus)

Iogurte não é coalhada
Coalhada é o leite cru que acidifica e coalha naturalmente,
quando deixado fora da geladeira, pela ação das bactérias do ar;
iogurte é feito do leite que se ferve
(mexendo sempre para não grudar na panela),
depois se deixa arrefecer até mais ou menos 50 graus
para então dissolver o pacotinho de lactobacilos.
Se você não tem um termômetro, pode medir
a temperatura com o dedo (lave o dedo!)
- o leite deve estar nem tão quente que queime o dedo,
nem tão morno que possa mexê-lo.
Ou seja, numa temperatura "esperta".
O resto da receita está na embalagem dos lactobacilos,
e de cada feitura de iogurte você guarda meia xícara
para inocular a próxima.

A coalhada também pode ser excelente para controlar a cândida. Ou não.

Olho vivo: iogurte comercial só serve se estiver escrito
que contém cultura viva de lactobacilos.
Yakult? Tem lactobacilos mas também tem tanto açúcar
que não adianta quase nada.
procure fazer 6 pequenas refeições ao longo do dia: desjejum, lanche, almoço, lanche, jantar, ceia. Coma pequenas quantidades para não sobrecarregar o sistema digestivo. Isso produziria muco, que os fungos adoram.

O QUE NÃO PODE COMER

açúcar e doces em geral, mel, melado, karo, maple, malte

pão, biscoito, torta, pastelaria, torrada, bolo e qualquer outro produto que leve farinha ou fermento

melões, bananas, maçã, uvas, manga, abacaxi e a maioria das frutas doces e ácidas

sucos de frutas, especialmente de laranja, e todos os que vêm em caixinhas, porque elas criam fungos por dentro

frutas secas (ameixa, damasco, tâmara, uvas-passas, banana-passa etc, que além de açúcar (frutose) sempre têm muito fungo (há monílias que reagem muito mais a tâmaras do que a sorvetes cremosos ou bombons)

nozes, castanhas e amêndoas em geral também têm muito fungo

amendoim, grande formador de cândida e possível portador de aflatoxina

vinagre de qualquer tipo

bebidas alcoólicas

leite, queijos, requeijão e creme de leite

batata-inglesa, batata-doce, batata-baroa, inhame, cará, aipim;
farinha de mandioca; milho verde; arroz branco, macarrão branco e outros alimentos ricos em amido, como cremogema, farinha de arroz, farinhas lácteas

beterraba também não pode, por causa do açúcar

produtos fermentados da soja - misso, shoyu, tempê, natô

frituras, empanados, gordura em geral

comidas que provoquem reações alérgicas em você, já que elas enfraquecem o sistema imunológico e assim abrem as portas para a cândida

café e chá preto, porque contêm cafeína e afetam o equilíbrio do açúcar no sangue; além disso, as folhas do chá preto são fermentadas

Por quanto tempo? Veja com sua médica. A idéia é não alimentar a cândida, mas também não podemos matar você de fome. E essa dieta dá fome, meninas, eu fiz.

O QUE MATA OS FUNGOS

ácido caprílico, ou caprilato de sódio, um ácido graxo natural, demonstrou capacidade de restaurar e manter um equilíbrio entre fermentos, bactérias e outros microrganismos no intestino grosso. Dosagem: 300 mg a 1 g junto com as refeições.

O valor do alho no combate à cândida foi comprovado em vários estudos, sendo até mais poderoso do que violeta genciana, nistatina e vários outros renomados fungicidas para uso tópico (dermatites, infestações nos pés, nas unhas, etc). Pode ser alho fresco, cru, mastigado ou amassadinho e incorporado à comida; ou extrato de alho envelhecido, que não deixa cheiro nem causa o desconforto digestivo que algumas pessoas sentem quando comem muito alho cru; ou ainda cápsulas de óleo de alho.

Cebola, cravo e raiz-forte têm efeito semelhante ao do alho, mas não tão incisivo. Gengibre, canela, romã, tomilho, melissa, camomila e alecrim também são úteis.

Lactobacilos de todos os tipos são importantíssimos para a recolonização da flora intestinal: controlam o crescimento dos bacilos, fermentos e micróbios nocivos através de uma produção própria de antibióticos naturais. Os principais são os lactobacilos bulgáricos, acidófilos e bífidos. Os bulgáricos são os que transformam o leite em iogurte; acidófilos, extremamente resistentes a todos os tipos de antibióticos sintéticos, você compra em cápsulas na farmácia, assim como os bífidos, ou faz de repolho, assim:
Lactobacilos de repolho
De manhã bater no liquidificador durante meio minuto, primeiro devagar depois em alta velocidade, 1 3/4 copos (420 ml) de água pura ou destilada com 3 copos (720 ml) de repolho cortado bem fininho e não muito apertado.

Colocar a mistura num vidro, cobrir com um pano fino e deixar à temperatura ambiente durante 72 horas; coar e jogar fora o bagaço. Do líquido, apelidado Rejuvelac, 1/4 de copo (60 ml) são o fermento: reservar.

Bater novamente no liquidificador 3 copos de repolho cortado fininho com 1 1/2 copo (360 ml) de água pura, colocar no vidro, juntar os 60 ml do primeiro Rejuvelac. Chacoalhar o vidro, cobrir e deixar à temperatura ambiente durante 24 horas (o processo vai mais rápido agora porque já tem o fermento).

Guardar o resto do Rejuvelac na geladeira e tomar 1/2 copo (120 ml) três vezes ao dia, junto com as refeições. Jogar fora qualquer resto de Rejuvelac depois de 24 horas.

Usar diariamente de um a três meses.

O sabor do bom Rejuvelac é ácido e ligeiramente gasoso, lembrando iogurte
natural ou água mineral gasosa forte.

Se o gosto for podre, jogue fora e comece de novo.



O chá feito da casca do pau-d'arco (Tecoma curialis), árvore que só dá nas nossas florestas tropicais, é coadjuvante no tratamento da candidíase. Não se espante se, após as primeiras xícaras, os sintomas piorarem - é uma reação natural que desaparece em poucos dias, e os depoimentos dão conta de que se segue um grande bem-estar físico e mental. O pau-d'arco é tido como poderoso e usado desde a civilização inca no combate às infecções e ao câncer. As pessoas quimicamente sensíveis suportam melhor a variedade Tecoma curialis do que a Tecoma conspicua. Dosagem: 15 a 20 gr da casca, fervida durante 15 minutos em meio litro d'água, 3 a 4 xícaras por dia. Nos Estados Unidos, onde já se tornou popular, o pau-d'arco é vendido também sob os nomes de taheebo e lapacho. Também vendem ipê-roxo (Tabebuia impetiginosa) como pau-d'arco.

Bérberis (Berberis vulgaris) também é um remédio popular antigo, valioso contra diarréias e infecções intestinais de qualquer tipo; sua atividade antibiótica está bem documentada, e sabe-se que normaliza a flora intestinal, eliminado agentes patogênicos e controlando o crescimento da cândida, mesmo após uso prolongado de antibióticos. Também é imunoestimulante, com ação específica sobre o fluxo de sangue para o baço, o que resulta num formidável aumento de substâncias que reforçam a imunidade. Além disso mostrou ser um poderoso ativador das células macrófagas, que destroem fungos, bactérias, vírus e células cancerosas. Outros remédios herbais com propriedades próximas às do Bérberis são a Hydrastis canadensis e o Berberis aquifolium. Dosagem mais usada: se for tintura, diluição 1:5, tome 1 colher de chá 3 vezes ao dia, em água. Tabletes homeopáticos ou gotas de Bérberis 3x, cinco de 8 em 8 horas.

O QUE FECHA O CORPO

Se você fosse uma casa, o sistema imunológico seria ao mesmo tempo portão, cerca, tinta, verniz, telhado, janela, cachorro bravo, alarme, grama, jardineiro, árvores, poço, chave, luz - tudo o que protege a casa permitindo que ela funcione. A imagem do cão de guarda combina. Os pedestres pacíficos ele só olha com o rabo do olho. Aos barulhentos ele reage latindo e rosnando. Os que ousam invadir, ele morde.

A imunidade ainda é um cestinho de perguntas sem resposta para a medicina ocidental. Anatomicamente ela depende de glândulas, gânglios, células e fluidos que limpam o organismo e reciclam nossa matéria orgânica. Quimicamente ela pode ser reforçada ou arrasada por substâncias as mais diversas, inclusive algumas que produzimos dentro do corpo sem saber. Por exemplo: se eu como muito chocolate fico cansada, mas a culpa não me deixa descansar, então começo a arranjar coisas para fazer quando na verdade não queria fazer nada. O chocolate, o cansaço e o stress de não descansar provocam mais oxidação no organismo, donde mais cansaço, irritabilidade, mau humor, desejo de compensações... Isso tudo vai abrindo brechas na cerca da casa, raspando a tinta, quebrando as telhas, deixando o cão sonolento... e no dia seguinte acordo com herpes.

COMO AUMENTAR A IMUNIDADE?



A imunidade faz parte da nossa energia vital. A gente ri, fala, chora, dorme, anda, tem fome, tem frio, e de alguma forma a imunidade está sempre envolvida. Por isso a medicina chinesa trata dela privilegiando alimentos e ervas que reforçam o princípio vital, o Chi e o sangue:
carne de galinha, codorna, ganso, tartaruga e boi;
rim de boi e carneiro;
fígado de boi, vitela, carneiro e porco;
leite cru de ovelha;
queijo fresco de vaca, cabra ou ovelha (mas quem tem candidíase, alergia, asma, coriza, sinusite e propensão ao câncer não deve comer laticínios);
ovo de galinha e pomba;
anchova, ostra;
germe de trigo, painço, cevada;
feijão azuki;
beterraba, nabo, inhame, batata-doce, berinjela;
repolho, agrião, espinafre, mostarda, cebolinha verde, coentro, hortelã, manjericão;
cebola, gengibre, noz-moscada, louro, erva-doce, orégano, sal, alcaparra;
castanha portuguesa, pêssego, uva.



E CONTRA CANDIDÍASE VAGINAL (MONÍLIA)?

A mucosa vaginal é habitada por muitos microrganismos, inclusive cândida, todos loucos para proliferar. A oportunidade acontece quando o pH da vagina perde sua acidez natural e se torna mais alcalino, coincidindo com desequilíbrios metabólicos ou hormonais, consumo de antibióticos de largo espectro, fragilidade imunitária, depressão, stress, incapacidade do organismo em lidar com açúcar ou álcool ou troca de parceria sexual.

O ataque de cândida nas partes mimosas é mais comum entre a ovulação e a menstruação, mas pode acontecer a qualquer momento. Se costuma vir depois de uma relação sexual, o jeito é usar ducha ou óvulo para acidificar o ambiente: como o sêmen é alcalino, eleva o pH da mucosa vaginal por oito horas e isso pode ser o suficiente para fazer a infecção.

ducha com vinagre
alivia coceira e queimação, e deve ser
completada por uma aplicação vaginal de iogurte natural
ou de lactobacilos em cápsulas para fornecer defesas à flora;
pode repetir a cada três horas, se for o caso.

lactobacilos acidófilos
você compra em cápsulas nas vitamin shops da vida
e coloca o conteúdo de duas cápsulas na vagina, à noite;
de manhã faz uma ducha de vinagre ou argila,
ou de água morna com uma cápsula de ácido bórico
durante o dia; repetir durante três a quatro dias

óleo virgem de coco, que também é um bom lubrificante - e maravilhoso para usar na pele e no cabelo. Onde encontrar? Clique aqui.



compressa de alho:
ponha meio litro de água no fogo; esmague uma cabeça de alho,
embrulhe num pedacinho de gaze ou pano de fralda, amarrando bem;
quando a água estiver quase fervendo,
ponha essa trouxinha de alho dentro dela, apague o fogo e tampe.
Embrulhe a panela em jornais e/ou panos,
para que ela conserve o calor, e leve para o banheiro.
Se você tiver uma garrafa térmica normalmente usada
para sopas e caldos, pode fazer a infusão dentro dela.

Agora, sentada no vaso ou no bidê,
molhe um bom chumaço de algodão
nessa infusão de alho bem quente e aplique na vulva,
mantendo-o lá até sentir que amornou.
Repita a operação várias vezes, sempre trocando o algodão,
enquanto a água estiver bem quente.

Homeopatia:
óvulos de Hydrastis, melissa, manjericão ou calêndula
Ducha com Tília europa
Para tomar: Kreosotum, Lilium tiglinum,
Caladium, Cantharis

PARA ENTENDER MAIS

A Candida albicans é um organismo que pode existir de duas formas. Uma é o fermento, que se reproduz ativamente através da fermentação dos açúcares presentes no estômago e nos intestinos. Outra é o micélio, parte do fungo que invade as células e os sistemas do corpo, deixando toxinas que provocam reação das células imunológicas - ou, em outros termos, produzindo antígenos que formam anticorpos. Isso resulta em stress metabólico, deficiências nutricionais e insuficiência hepática, provocando e desgastando o sistema imune e confundindo a ação de enzimas e hormônios essenciais para a vida normal.

Uma forma de evitar a conversão dos fermentos em micélios
é comer alimentos muito ricos em biotina,
vitamina do complexo B presente principalmente no fígado de galinha
(100mcg/50g), na farinha de soja (60 a 70mcg/100g),
fígado e rins de boi (30 a 40mcg/100g)
e gema de ovo (16 mcg/1 gema).
A absorção da biotina é reduzida ou impedida
pela presença de álcool, avidina (proteína da clara crua do ovo),
cafeína, drogas à base de sulfa e radicais livres.

Enzimas são proteínas responsáveis pela maioria das reações químicas que acontecem o tempo todo no organismo. Hormônios são mensageiros que as glândulas mandam para modificar a atuação das células. Pois bem, a cândida consegue construir moléculas parecidíssimas com as moléculas hormonais, fazendo falhar as enzimas, alterando todos os sistemas orgânicos e gerando os sintomas mais inesperados. Por exemplo, você leu lá atrás sobre a síndrome pré-menstrual e viu que ela melhora muito com suplementos de vitamina B6. Não porque a B6 tenha alguma coisa especial com menstruação, mas porque todas as nossas células dependem de B6. E quem tirou a B6 que estava ali? A toxina da cândida. Você leu sobre hipoglicemia agora mesmo. Então, pasme: as toxinas da cândida impedem que a glicose seja processada de modo eficiente, e como todas as nossas células dependem da glicose, ter cândida é praticamente a mesma coisa que ter hipoglicemia!

Uma das coisas mais curiosas que as canditoxinas podem aprontar é que de repente você sente embriaguez sem ter bebido uma gota sequer de álcool. Como assim? Simples: afinal, ela é um fermento com a mesma capacidade dos que produzem vinho, uísque, cachaça. Você come frutas, ela fermenta a frutose e abastece o alambique; você come doces, ela fermenta a sacarose; você come cereais, e lá vai ela fabricar uísque nacional. No mínimo isso dá sonolência e dificuldade de concentração depois de comer, mesmo que você esteja na mais romântica das alcovas com o ser amado. Tem gente que começa a esquecer as coisas, falar enrolado, andar sem firmeza, parecendo que bebeu demais... E qualquer esforço no sentido de manter a consciência dá um cansaço enorme. O caso é dormir porque a intoxicação alcoólica já pôs o fígado a nocaute. Assim: o fígado tem uma camadinha de células, ditas de Kupffer, que constituem 90% das macrófagas do corpo. São elas que assimilam e neutralizam as toxinas que vêm do intestino junto com os nutrientes. O álcool entorpece as pequeninas Kupffer de tal modo que elas não conseguem trabalhar, e o sangue intestinal passa à corrente sanguínea sem ser filtrado. E esse álcool tanto pode ser o da garrafa quanto o endógeno, que se produz pela fermentação interna na maior inocência, na maior candidez...

Bibliografia e fontes: The Missing Diagnosis, C. Orian Truss, P.O. Box 26508, Birmingham, Alabama, 1983. The Yeast Syndrome, John Parks Trowbridge, MD, and Morton Walker, DPM, Bantam Books, NY, 1986. The Candida Albicans Yeast-Free Cookbook, Pat Connolly & alter, Keats Publishing, Connecticut,1985. The Yeast Connection, William G. Crook, M.D., Professional Books, P.O.Box 3246, Jackson, Tennessee 38303, USA, 1993. Linus Pauling Institute of Science and Medicine, 440 Page Mill Road, Palo Alto, CA 94306. Price-Pottenger Nutrition Foundation, 5871 El Cajon Boulevard, San Diego, CA 92115.

Capítulo integral do livro Só Para Mulheres, de Sonia Hirsch,
que pode ser encomendando em www.correcotia.com/compras

Fonte: http://www.correcotia.com/mulheres/candidiase.htm - acesso em 01 de julho de 2009

Hedonismo - O prazer como missão

Epicurismo: o prazer como missão

A doutrina da antiguidade clássica pregava a satisfação (moderada) e zombava do destino.
por Liliane Prata*



ele não é tecido por forças divinas, mas escrito pelos humanos
Para Epicuro, a verdadeira felicidade só pode ser alcançada quando o homem entender que o único prazer possível é aquele alcançado pela ausência de preocupação da mente e do corpo. Essa, para o filósofo, é a verdadeira ideia de felicidade.

Os gregos antigos estavam habituados a fazer uma série de especulações místicas e filosóficas a respeito da morte. No campo supersticioso, a vontade dos deuses e os caprichos do destino permeavam explicações para o fim da vida. Na filosofia, discutia-se a ligação da alma com o corpo e ensinavam-se maneiras de se lidar com o medo da morte. Sócrates (470-399 a.C.), diante da preocupação acerca do tema, ensinava que “filosofar é aprender a morrer”. Mas, no fim do século IV a.C., eis que uma escola inovadora abria suas portas ou, melhor dizendo, seus jardins, em Atenas. O mestre, Epicuro (341-270 a.C.), não só considerava sem sentido as angústias em relação à morte, como ria do destino e pregava que o sentido da vida era o prazer. Nascia o epicurismo.

O papel da filosofia, para Epicuro, é bem claro: cuidar da saúde da alma. Assim como a medicina precisa se ocupar dos males do corpo, a filosofia só tem valor se cuidar dos da alma, longe de consistir num discurso vazio e abstrato. O discípulo Diógenes de Oenoanda resumiu a sabedoria do mestre em quatro “remédios” de cunho bem prático: 1) Os deuses não devem ser temidos; 2) A morte não deve amedrontar; 3) O bem é fácil de ser obtido; 4) E o mal, fácil de suportar.

Comecemos pelo não temor aos deuses. Epicuro não era ateu, como foi acusado por alguns. Ele acreditava na existência dos deuses, mas sustentava que estes eram indiferentes aos humanos. Serenos, as deidades habitariam um plano perfeito, não nutrindo nenhum interesse pelas coisas que acontecem aqui embaixo. Assim, é inútil temê-los ou se preocupar com castigos. Ter medo do destino é igualmente desnecessário:ele não é tecido por forças divinas, mas escrito pelos humanos.

O Epicurismo, de Jean Brun. Da Edições 70.

História da Filosofia Antiga, de Giovanni Reale, volume III. Da Edições Loyola.

O Epicurismo, contendo uma antologia de textos de Epicuro, com tradução, prefácio e notas de Agostinho da Silva. Da Edições de Ouro.

Voltemos, agora, ao tema da morte. Para os epicuristas, simplesmente não faz sentido se preocupar com ela. Acompanhe, leitor, o raciocínio: quando um ser humano existe, a morte não existe para ele. Quando ela existe, ele é que não existe mais. Assim, nós nunca nos encontramos com nossa morte – nossa existência nunca se dá ao mesmo tempo da existência dela. Logo, ocupemos nossas mentes com a vida e desfrutemos dela. E qual é o maior bem que podemos usufruir? O prazer. Ah, o prazer!

Mas, calma lá. A noção de prazer, no epicurismo, é extremamente refinada. Não se trata de uma busca desenfreada pela fruição do momento presente, como era para outro grego, Aristipo de Cirene (435-366 a.C.), conhecido por pregar o hedonismo. O prazer do epicurismo é calmo e sereno. O sábio deve evitar a dor e as perturbações, levando uma vida isolada da multidão, dos luxos e excessos. Colocando-se em harmonia com a natureza, ele desfruta da paz. Epicuro condena a renovação a qualquer preço e a ânsia pela mudança, pregando uma espécie de prazer tranquilo.

Para vivenciar esse prazer, é fundamental evitar a dor, como ensina o quarto remédio de Diógenes. A tarefa não é difícil para Epicuro. Diferentemente da postura desapegada em relação ao passado e ao futuro, característica dos seguidores do estoicismo – corrente filosófica contemporânea e rival à de Epicuro –, os epicuristas afirmavam que, para amenizar momentos dolorosos, nada como se lembrar de alegrias passadas ou criar expectativas felizes em relação ao futuro. E não pense que o mestre ensinava sem conhecimento de causa: ele mesmo sofria dores constantes, em virtude de uma grave doença que o acompanhou em grande parte da vida.

Amizade nas escolas

Um dos valores defendidos pelos epicuristas é a amizade. O sábio, compreendido somente por outro sábio, vive melhor longe da multidão e da confusão da cidade, mas nem por isso deve seguir solitário: Epicuro considerava a amizade uma grande felicidade e repreendia os que pretendiam passar a vida sem ela. Aliás, a própria escola, fundada em 306 a.C., era um espaço de convivência entre amigos. “Na Grécia Antiga, as escolas eram bem diferentes das de hoje”, explica Marco Zingano, professor do departamento de Filosofia da USP. “Lá, as pessoas viviam, dormiam, conversavam. Era um verdadeiro espaço de convivência.” Diferentemente de outras escolas, como o Pórtico, dos estóicos, a de Epicuro ficava em um lugar afastado na cidade, funcionando como um calmo retiro, como convinha aos ensinamentos da doutrina. Como a escola situava-se em um grande jardim, os discípulos, na época, ficaram conhecidos como “Filósofos do Jardim”.

*Liliane Prata é jornalista e graduanda em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

Poesia: Clara

Poesia antiguinha feita numa fase de dor... e escuro.
Bom, achei e resolvi postar...
bjs, amorinhas
P.


Clara


Eu sei que é sempre diferente
que eu lido com uma coisa descontente...
mas quero de verdade descobrir o que eu tenho
que assusta, que impede... que afasta
será que não me mostro clara?
será que sou clara demais?
será que é minha palavra?
ou será que é minha insana paz

Pra lidar com tudo isso
preciso me libertar e quero
quero parar de sonhar coisas inúteis
quero parar de querer parar
quero mergulhar bem fundo
ou ainda aprender a descer devagar
quero um riozinho pra boiar
uma água limpa pra me jogar
uma lágrima a menos no meu olhar

cadê vc que não chega?
quantos lugares errados tão certos terei de visitar?

quero aprender, mas nao sei ainda o quê
não consigo enxergar em meio a tanta luz

será que culpo, me escondo, me anulo?
será que não vejo, me cego, me insulto?

são tantos serás que não aguento mais
a dor é antiga, mas ainda me surpreende
nessa jaula maciça e brilhante que me prende

será que o menos é mais nessas horas?
será que é a vida, na chuva, na aurora?
nessa manhã que não chega e me arrasta
dessa noite escura, confusa e nefasta

eu olho e vejo um desejo
uma fagulha que sem ar se apaga com o vento
uma eternidade em um pequeno momento
que acaba antes de ser, pro meu desalento

Fox - 28 de agosto de 2007 - Lua cheia em peixes...

As Parcas e o Destino

AS PARCAS

Somos três as Parcas
Na barca do destino,
Somos três as Fiandeiras,
Laçadeiras da existência,
Somos três as Mulheres
Desta terra brasileira.

Sou Cloto,
A que fia,
A jovem índia,
A que lamenta a opressão,
O genocídio,
A vida transformada em morte no fim do dia.

Sou Láquesis,
A que tira a sorte,
A que determina o comprimento do fio;
Munida de um fuso
E de um mapa-múndi
Localizo almas;
Vim da África,
Minha pele é negra,
Cruzo mares
Em navios negreiros,
Escuros e sombrios
Como a escravidão.

Sou Átropos,
Nada abranda meu coração,
Corto o fio dos novelos,
Na hora em que Deus manda;
Sou alva como lírio,
elha como a História,
Minha única glória,
A de agora,
A de sempre,
A de nunca mais,
É cavar a cova dos mortais.

Somos três as Parcas
Que ligam este mundo
Ao outro mundo;
O Inferno ao Céu
E o Céu à Terra;
O homem a si
E ao seu princípio.

Somos três as Parcas
Neste labirinto,
Seguindo passo a passo o fio
Que conduz ao Infinito.

Somos três as Parcas
Nestes bastidores,
Nestes teares,
Criando formas
Que se rompem,
Frutos de nossas entranhas,
De nossa substância,
De nossas teias de aranhas.

Somos três as Parcas,
Duras e impiedosas,
Filhas da Necessidade,
Lei que rege as mudanças,
Que planta e ceifa
As contínuas esperanças.

Somos três as Parcas,
Fixando símbolos,
Plantando sementes
Nos campos das mentes
Que lavramos.

.../
Somos três as Parcas,
Somos três as Moiras:
Índia,
Negra,
Ibérica,
Marcas deste continente
Que se fez América.

Poeta e professora na Universidade
Santa Úrsula e na Casa da Leitura, RJ.
Autora de Casa e Castelo, Ed. Escrituras, que reúne
Casa de Tecla, indicado ao Prêmio Jabuti de 1999 e
Senhora, Prêmio Henriqueta Lisboa, da Academia
Mineira de Letras. raquelnaveira@oi.com.br

retirado do site: http://www.tanto.com.br/raquelnaveira.htm

A mulher esqueleto e a natureza do amor

Imagem: Hrana Janto

Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar.
Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.
Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalham ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.
O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu – logo em quê ! – nos ossos das costelas da mulher-esqueleto. O pescador pensou:
- “Oba, agora peguei um grande de verdade ! Agora peguei um mesmo !” Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ela lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado que estava, já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.
- Agh! – gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte. – Agh! – berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarra-lo para levá-lo para as profundezas.
- Aaaggggghhhh! – uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da mulher-esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado secar , rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.
O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos Deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.
Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela – aquilo – jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.
- Oh, na, na, na. – Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos. – Oh, na,na, na. – Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaiszinhos aos de um ser humano.
Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra – não tinha coragem – para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá em baixo nas pedras , quebrando totalmente seus ossos.
O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.
A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.
Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: bom, bomm !...Bom, Bomm !
Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
- Carne, carne, carne! Carne, carne, carne! – Enquanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando o outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.
As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d’água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.

História do povo Inuit (aborígenes do Canadá)

Clarissa Pinkola Estés disse o seguinte: “Essa história é uma imagem adequada para o problema do amor moderno, o medo da natureza da vida-morte-vida, em especial do aspecto morte. Em grande parte da cultura ocidental, o personagem original da natureza da morte foi encoberto por vários dogmas e doutrinas até o ponto em que se separou de vez da sua outra metade, a vida. Fomos ensinados, equivocadamente, a aceitar a forma mutilada de um dos aspectos mais básicos da natureza selvagem. Aprendemos que a morte sempre acompanhada de mais morte. Isso simplesmente não é verdade. A morte está sempre no processo de incubar uma vida nova. Quando nossa existência foi retalhada até os ossos.
Em vez de considerar os arquétipos de morte e da vida como opostos, devemos encará-los juntos como o lado esquerdo e o direito de um único pensamento. É fato que dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto nas delicadas camadas do ser criado quando duas pessoas se amam , existe um coração e um alento. Enquanto um lado do coração se esvazia, o outro se enche. Quando uma respiração termina, outra se inicia.”

Retirado do site: http://contosafricanosearabes.blogspot.com

As mulheres e a filosofia como ciência de conhecimento

por Marcia Tiburi

Falar em história das mulheres é algo um tanto novo no meio acadêmico brasileiro, mas a questão, aos poucos, vem tomando corpo e invadindo espaços variados de investigação. Maior novidade ainda é falar nos temas "mulheres", "gênero" e "feminino" como conceitos, o que remete ao campo próprio da filosofia. O significado desses termos tem plena atualidade filosófica e crítica. Em primeiro lugar, as mulheres são um tema ou mesmo um tópos de uma história da filosofia escrita por homens. É raro encontrar um filósofo que não tenha se ocupado da questão sempre tratada na intenção da delimitação do lugar do humano em sua relação com as mulheres. Enquanto tema, e em segundo lugar, elas são um assunto que entrelaça motivos políticos, estéticos e metafísicos. É nesse território que aparece o conceito do feminino. Os filósofos homens tentaram construir uma geografia onde situar o feminino que, como símbolo, é o locus específico eleito para as mulheres, para definir sua natureza e ditar-lhes uma lei, uma inscrição no universo previamente tecido da tradição. Gênero é o termo usado há algumas décadas para falar dessa produção de identidade segundo a cultura, a sociedade e os mecanismo de poder nela envolvidos. Gênero, portanto, para o feminismo, é um conceito crítico. Do mesmo modo, os outros dois conceitos devem ser vistos de modo crítico, considerando o aspecto retórico, a função e o uso que tentam fazer valer a verdade histórica contida na palavra.

O feminismo filosófico surge diante dessas questões. Um de seus aspectos fundamentais - que poderá qualificar o feminismo em filosofia em relação aos movimentos feministas de teor eminentemente prático - é a questão da relação entre teoria e prática, do conhecimento e da ação, que fundam o sentido do que chamamos, ainda hoje, de filosofia. O feminismo ajuda a questionar o discurso filosófico em seus pressupostos fundamentais e mesmo arcaicos, tendo a filosofia como uma teoria da ação. É preciso ter em vista que a atualidade das questões políticas que envolvem as mulheres em tantos setores da atividade humana (problema sério em países inteiros) não pode ser compreendida sem atenção aos aspectos de fundo, ao espaço da fundamentação metafísica/ética/estética, que pode orientar para a recuperação da vocação prática da filosofia. A questão feminina é atual e dispõe-se na urgência da produção da solidariedade com o passado, o presente e o futuro da humanidade. As mulheres compõem a história violentada sob o decreto da exclusão da mulher; do mesmo modo, a história da filosofia que, como qualificação do pensamento e da razão, determina os conceitos fundamentais que estão na base da estrutura da sociedade, participa dessa violência. O feminismo filosófico, lembremos, em sua exposição especial com Mary Wollstonecraft, no século XVIII, era a defesa do bom senso da humanidade. Portanto, uma causa voltada para a construção de uma sociedade para todos, não apenas de homens, nem apenas de mulheres. O feminismo filosófico vem levantar essa questão que é ainda atual e que diz respeito à fundação de uma sociedade justa em que a violência e a dominação sejam expostas em seus elementos constitutivos.

A definição filosófica do feminismo, todavia, é tão complexa quanto a história da filosofia. É preciso uma definição apropriada do que se entende por essa história para que o conceito do feminismo e os movimentos que ele permite possam ter validade filosófica. Enquanto história, a filosofia constitui-se como tradição e cânone do qual as mulheres não participaram de modo relevante. O feminismo filosófico é a teoria que procura investigar a fundamentação dessa falta. É um modo de teorização que surge com a já citada Wollstonecraft, em seus Escritos Políticos, nos quais critica o sexismo dos filósofos homens (de Rousseau ao seu contemporâneo Burke), e que evolui até o século XX, com filósofas como Simone de Beauvoir em seu O Segundo Sexo, alertando para os direitos das mulheres na base de uma reivindicação a ser e a pensar, à vida pública e ao universo do discurso e do poder. De meados do século XX até hoje, o feminismo cresce como filosofia que tenta rever o posicionamento da mulher diante da estrutura social e da produção do conhecimento. Se as mulheres constróem um lugar de filósofas no século XX, é porque participaram de uma revolução real que altera as micro e macro estruturas da sociedade ao confirmarem sua presença. Esse é o avanço do feminismo para a filosofia: produzir a entrada das mulheres na cena ontológica - o poder ser - que redunda na cada vez mais crescente cena política e pública consituindo as mulheres como cidadãs, ou seja, seres que participam da constituição política como participantes - que não seja uma mera tautologia dizer - da "pólis".

A ausência histórica das mulheres da filosofia pode ser explicada de muitos modos. O primeiro motivo a ser levantado é, portanto, o silêncio feminino facilmente observável na um tanto escassa produção de livros e textos. As mulheres filósofas são poucas e de produção quase rara relativamente aos homens. É claro que falo aqui em termos quantitativos. Não é possível dizer que as mulheres escreveram muito para acobertar uma acusação de inferioridade intelectual - argumento que, mesmo comum, não encontraria sustentação -, nem é possível dizer, entretanto, que não escrevessem ou participassem da fundação da tradição da filosofia. É preciso enfrentar a questão do silenciamento. Apenas a desmontagem desse processo histórico, por meio de uma genealogia que procura verificar seus elementos originários sempre presentes e renascentes na atualidade, permitirá compreender, pela via negativa, a verdade oculta na produção do silêncio imposto. As mulheres, é certo, participaram da filosofia, mas pela porta dos fundos, assim como de todos os setores da vida produtiva e ativa das sociedades. A improdutividade das mulheres - que não se esqueça - não pode ser avaliada sem a procura por aspectos que tocam na fundamentação dos movimentos da história. A alegação de que as mulheres tenham sido, ao longo do tempo, seres do silêncio por sua própria natureza ou que, na divisão do trabalho, tenham ficado com as tarefas do corpo, da procriação, da casa, da agricultura, da domesticação dos animais, por questões sempre naturais, perde sua validade. A produção do ideal da "natureza feminina", assim como de uma "natureza do homem" ou mesmo uma "natureza humana" serve à delimitação do humano segundo a utilidade necessária à constituição e ao interesse do poder e seus guardiões. Os filósofos sempre tocaram com essa questão na produção do humano por meio de sua definição. As mulheres sempre representaram mais do que a cultura excluída da cultura, ou da cena dos meios de produção e do conhecimento: as mulheres representam a humanidade excluída da humanidade.

O segundo motivo da ausência é, pois, a construção de um ideal feminino que mascara o recalque do corpo, da natureza, da vida nua - na expressão de Walter Benjamin - da qual coube às mulheres serem os estranhos porta-vozes: toda fala das mulheres, a partir desse pressuposto, precisa ser compreendida sob o signo do silêncio que a revela. Se o silêncio apareceu na história como um atributo feminino, que constituía parte do suposto mistério constitutivo da mulher - e mesmo do feminino enquanto ideal - é preciso rever seu lugar e pensar a construção do lugar do silêncio no qual as mulheres foram trancadas, assim como o foram em casas, escolas, conventos e manicômios para histéricas. O silenciamento das mulheres ocorreu em momentos específicos da história e concomitante a um processo que teve vítimas em setores variados. O silenciamento teve seu modo pérfido, quando mulheres foram levadas à fogueira, e teve seu modo cínico: as mulheres foram transformadas no "belo sexo" produzido pela cultura com o apoio da filosofia e das artes. A produção do ideal do belo sexo, a propósito, é uma marca da modernidade: sua função sempre foi a de afastar as mulheres do conhecimento e da política, mais do que protegê-las da imagem do mal com que foram desenhadas.

A história da filosofia, em qualquer de seus tempos, é marcada pelo horror dos filósofos homens às mulheres que, dedicando-se ao saber, almejam a filosofia: nada melhor do que domesticá-las pela sensibilidade, dominá-las pela própria imagem. Sócrates - esse filho de parteira - sabia de seu poder e de sua ameaça (a ameaça política que implica a defesa de direitos) e, por isso, copia-lhes, num gesto de curiosa inveja, o procedimento corporal do parto elevando-o a método: a maiêutica é o parto das idéias que cabe aos homens, enquanto às mulheres cabe o parto do corpo. Essa superação revela-se, após uma longa história de argumentos, como um mecanismo suspeito.

As mulheres produziram conhecimento ao longo da história filosófica, mas com a marca do silêncio ou pela via negativa. Desde a famosa Aspásia, mulher de Péricles e professora de retórica contra a qual se insurge Platão no século IV, até a Sra. Dacier, conhecedora de grego, contra qual se insurge Kant (em pleno século das Luzes!!!), não faltarão à história exemplos de horror às mulheres. Alguém mais sutil, como o afamado Rousseau, tratará a mulher como uma jóia (como Sofia) que deverá valer a honra e ser a sustentação moral e emocional de seu marido (Emílio). Rousseau é um dos exemplos da misoginia que afeta, sorrateiramente, a construção do gênero feminino, lançando-o ao lugar da "boa" e "bela" moça e companheira, modo eufemista de sustentar a inferioridade do sexo feminino. A argumentação pela inferioridade da mulher era lugar-comum na proto-ciência da filosofia de Aristóteles e nos séculos da modernidade tardou a revolucionar-se segundo as normas da universalização dos direitos que ela trazia como bandeira.

Apesar disso, a modernidade é um tempo de antagonismos. Descartes, por exemplo, trocará cartas importantes com a Princesa Elisabeth e inspirará a filosofia feminista de Poulain de La Barre, assim como Leibniz e Locke trocarão correspondências com filósofas como Damaris Cudworth e Catharina Cockburn. A modernidade, aos poucos se divide entre os que criticam e os que defendem as mulheres. No século XIX, sob auspícios do feminismo crescente, Stuart Mill defenderá com ardor os direitos das mulheres como outros filósofos que não encontram fundamentos para a exclusão e o impedimento da cidadania e da liberdade de ação e expressão para as mulheres. No século XIX, mantida a tensão moderna, muitos filósofos - como Nietzsche e os românticos - ocupam-se das mulheres de modo ambíguo: para muitos, ela permanece como a irrefletida figura de uma natureza indomável e misteriosa. No mesmo tempo, em muitos países da Europa o feminismo, como reivindicação pública de direitos, cresce - mesmo no Brasil, Nísia Floresta (que troca correspondências com Augusto Comte, o que mostra mais uma tentativa de trocar idéias, de produzir diálogo por meio da carta) torna-se uma figura importante por seus livros cheios de idéias revolucionárias para as mulheres - e mulheres tornam-se filósofas sem mesmo precisarem entrar na questão feminista, como é o caso de Hannah Arendt. São novos tempos que resultam de um longo processo histórico de escravização passada que provam que o feminismo teve e tem ainda sentido.

A história das mulheres na filosofia contribui para a escrita de uma história do silêncio, uma história do recalque, mais do que do esquecimento. Não basta - para fazer justiça ao passado - fazer uma lista dos nomes que constituíram essa história como se pudéssemos, por um artifício de arquivo, dar sentido à memória e resgatar ou enterrar simbolicamente nossas mortas e injustiçadas. A produção do futuro, sua invenção, depende dos gestos de retomada, resgate, salvação, do presente. A ação reflexiva - declarada no feminismo - precisa atingir a todos os envolvidos com a espécie humana.

Marcia Tiburi é professora da pós-graduação da Filosofia na Unisinos e Unilasalle.
Retirado do site: http://www.comciencia.br/reportagens/mulheres/15.shtml - Acesso: 17/07/2009

Poema: Ode ao Presente


Caminho
sorrio...
e quando choro
esvazio
cada grão de poeira,
cada fronteira

Olho pra frente
desejo....
penso no que já foi
e revejo
cada flor, cada espinho
cada poção, cada suspiro

Mas é o presente
essa ode ao aqui... ao agora
onde realizo,
onde um real riso
me preenche de mim mesma

Patricia Fox - Maio 2009
Num dia de Lua, cheia de graça...

A Mulher e seu dinheiro

Por Ana Lucília Rodrigues
* retirado do site: http://www.psicologianocotidiano.com.br/

A atividade profissional feminina adquiriu o direito à cidadania. É agora um valor e uma aspiração legítima. A condição pós-moderna se recusa a uma identidade constituída exclusivamente pelas funções de mãe e esposa.
Segundo o sociólogo Gilles Lipovetsky, está nova mulher concretiza uma ruptura histórica na identidade feminina, bem como nas relações entre os sexos. Esse novo modelo histórico é nomeado de a "terceira mulher". A "primeira mulher" corresponderia a Eva da tradição judaico-cristã, ser nefasto e diabólico, agente da infelicidade do homem. A "segunda mulher" é posta em cena a partir da Idade Média, é uma espécie de anjo idealizado por sua beleza e qualidades "passivas", é glorificada em verso e prosa pelos homens, ela está longe de conquistar sua autonomia individual diante do macho dominador.
A aparição da "terceira mulher" é resultado da revolução feminina dos anos 60, a partir disto, surge um novo modelo de subjetivação, com novas definições e significações no imaginário-social. Agora é a vez da mulher que comanda seu destino, deixou de ser uma invenção do homem para se instituir como uma invenção de si mesma, neste sentido, é indeterminada, necessitando ser reinventada a todo instante.
Mas séculos e séculos de opressão feminina, não podem ser solucionados num abrir e fechar de olhos, isso é demonstrado pelo discurso feminino que surge na prática clínica ou no cotidiano de muitas mulheres, que ainda flertam com alguns fantasmas de suas antecessoras, tais como o da "prostituição" que as remete a culpa e a vergonha, ou da "mãe má", ou ainda o da transgressão de sua feminilidade etc.
Alguns destes fantasmas foram reeditados quando as mulheres começaram a ter acesso ao seu dinheiro, eclipsando a constituição subjetiva da "terceira mulher", que às vezes desempenha muito bem seu profissional, mas sua remuneração fica a desejar. Será que podemos culpabilizar só o campo do social por tal discriminação? Por que as mulheres estabelecem uma relação com o dinheiro diferente da do homem? Podemos realmente considerar a independência econômica feminina como uma carta de alforria para a sua autonomia?
Primeiramente podemos dizer que nem sempre a independência econômica é sinal de autonomia, e isto vale para homens e mulheres, estas estariam envoltas por uma série de situações que demonstram tal afirmação. Temos as mulheres que renegam sua independência desperdiçando seu dinheiro com maus negócios, compras desnecessárias, ou aquelas que revertem seus ganhos para a casa (marido, filhos) e assim elas vão arrumando saídas para não reverterem o dinheiro de seu trabalho para si mesmo, quando isto não acontece sentem-se culpadas.
Quando a mulher não trabalha, obtém dinheiro para suas coisas submetendo-se por vezes a uma tarefa árdua e angustiante, ou pede ao marido, situação que geralmente não é agradável ou extrai o dinheiro mediante múltiplos artifícios. Existem também aquelas que nunca alcançam o que querem, escutando de seus maridos que o dinheiro nunca é suficiente, estas mulheres são o reflexo de uma posição vingativa por não conseguirem e não saberem reverter sua dependência em independência.
Em outras palavras o dinheiro feminino é o "pouco" dinheiro, é aquele de todos os dias, do consumo cotidiano que mantém a estrutura familiar, que as mantém na dependência. Já o dinheiro "grande", é o que sustenta o poder, representa a permissão para um espaço próprio do reconhecimento dos desejos e necessidades individuais.É o dinheiro que quase sempre o homem dispõe e que as mulheres carecem dele.
O dinheiro é um tema tabu que fica alojado num silêncio nada ingênuo e inócuo, dificultando ainda mais as mulheres ascederem ao direito de possuí-lo livre de culpas ao administrá-lo ou tomar decisões segundo seus próprios desejos.
"O pouco" dinheiro também surgiu em situações nas quais a mulher tem de estipular, receber ou reclamar os honorários profissionais. É aqui onde podemos observar claramente que o âmbito público traz ao universo feminino conflitos que muitas vezes expresso por sintomas que dificultam ainda mais a relação das mulheres com o dinheiro.
Segundo a citação Clara Coria dos Centros de Estudos da Mulher de Bueno Aires: "Os honorários profissionais circulam fundamentalmente no âmbito publico, são a evidencia de um mecanismo pelo qual se recebe dinheiro em troca de seus serviços... atividade está exercida pelos homens, com exceção da profissão mais velha do mundo "a prostituição". Esta tradição ancestral, que quase pode ser considerada a pré-história do trabalho feminino, está presente de maneira inconsciente quando as mulheres recebem dinheiro em troca de serviço. Esta identificação em menores ou maiores proporções articulada com a história individual de cada mulher podem gerar sintomas em relação ao dinheiro.
Na contra mão, da "prostituição" a cobrança de honorários por parte das mulheres coloca também em evidencia um lugar nem um pouco altruísta e desinteressado. Em outras palavras é o oposto das atividades maternais, aquelas que ostentam o protótipo de "serviços que não tem preço". Colocar um preço e cobrar, portanto, é vivido inconscientemente como uma transgressão das expectativas esperada de seu papel de mulher.
Outro fantasma que persegue e atormenta as mulheres que ascedem ao dinheiro é o do temor de perder sua feminilidade e conseqüentemente de perder o amor de seu homem o que gera para algumas mulheres uma devastação da sua identidade.
O grande perigo e verem a atuação destes fantasmas como "natural" do ser mulher e não reconhecer que eles constituem "dificuldades" que prejudicam e entorpecem a constituição de sua subjetividade.
Em síntese, por motivos distintos o "dinheiro" que é recebido ou cobrado na mão de uma mulher toma a consistência de uma "batata quente" em suas mãos, ao passo que para os homens é um indicador de "virilidade". Do lado das mulheres as "angústias" do lado dos homens "os prazeres".

É importante ressaltar que a independência econômica citada se refere à disponibilidade de recursos econômicos próprios, enquanto a autonomia é a possibilidade de usar seus recursos, podendo tomar decisões com critérios próprios e fazer escolhas pessoais.

A Amor - Gibran

O Amor -
Gibran Kahlil Gibran

Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor.”
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

__________
Copyright © Arnaldo Poesia - Le Monde de Paris - Quinzaine Littéraire.
Visite a minha página: Gibran Kahlil Gibran: O Poeta do Amor
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A dança sagrada em minha vida...

A Dança Sagrada Feminina em minha vida

Sedução e brilho não são premissas das aulas mas resultados do processo gradativo do despertar da Deusa-bailarina interior de cada praticante. Este é o foco da professora Patricia Fox, especialista em Espiritualidade e Mitologia Femininas. Ela relata como foi sua aproximação com a dança, desde a infância, passando pelas danças circulares, tribal e do ventre, e como criou uma dinâmica própria onde, através de apresentações em dupla com Kiki Garcia, consegue levar a espiritualidade feminina a grupos onde a exposição com a linguagem da dança facilita o entendimento do sagrado.
Patrícia conta com paixão suas vivências. "Meu processo de ensinar participar de alguns passinhos dessas mulheres, me emociona e me enche de inspiração para querer ir cada vez mais fundo na dança e em mim mesma e, com isso, ter capacidade de voar cada vez mais alto".


Quando o Ricardo me pediu um artigo, encontrei diversas idéias querendo se expressar através de mim. Resolvi abordar num pequeno depoimento a minha história pessoal, a principal ferramenta de toda pessoa que se propõe a curar não só a si, mas também a comunidade e a Terra.
A dança sempre esteve presente na minha vida, pois sou filha de artistas e a dançar era uma das atividades mais incentivadas, principalmente por minha mãe. Porém, demorou um pouquinho para que eu percebesse que a dança não só me divertia, mas também poderia ser uma medicina sagrada.
Em 2001, tive a sorte de receber Karin Kansog na Hera Mágica para conduzir aulas de danças circulares sagradas. Eu adorava participar sempre que podia, achava mágico e alimentava minha menina interior. Mas minha Afrodite precisava de uma outra ferramenta...
Dois anos mais tarde, foi a vez de iniciar as aulas de dança do ventre. Convidei uma de nossas alunas dos grupos de estudos, Vania Psique, para dar aulas na Hera. Ela foi minha primeira professora e formamos um grupo muito bom (nos apresentamos algumas vezes nos nossos antológicos saraus). Logo depois de começar as aulas, passei por uma grande transformação pessoal e a dança do ventre funcionou como uma forma mais leve de vivenciar uma jornada para dentro de mim. A poderosa Afrodite veio me auxiliar com sua luz nas muitas sombras que tive de enfrentar. Me apaixonei pela dança e por uma parte de mim mesma que não conhecia muito bem.
Comecei a pesquisar sobre as relações emocionais na prática. Um pequeno livro de Sueli Lyz me ajudou a conectar os movimentos com os arquétipos das Deusas (um dos principais temas de minha pesquisa) e me abriu várias possibilidades na aplicação curativa, ainda pessoal, da dança.
Passei praticamente três anos como autodidata, deixando a dança me levar, sentindo o que meu corpo queria falar e encontrei belas poesias e melodias, muitas vezes dolorosas, mas sem perder a beleza.
Em 2007, iniciei minhas aulas com a fantástica bailarina Salua Cardi e, em seis meses, ela me convenceu de que eu estava preparada para dar aulas para iniciantes.

Minha abordagem hoje nas aulas está ligada a fazer com que a dança seja realmente um veículo para o resgate do feminino. A sedução e o "brilho" são conseqüências do despertar da Deusa-bailarina interior e não o foco em minhas aulas. A mulher precisa dançar primeiramente para si própria para que possa compartilhar seu deleite com quem assiste sua arte. Adoro ver a transformação de minhas alunas em "flores desabrochando", este é um processo sagrado.

Me emociona e me enche de inspiração - No mesmo ano de 2007, através da minha grande amiga e parceira de dança Kiki Garcia, conheci um estilo de dança que fez minha alma e olhos brilharem, ou seja, nascia mais uma paixão: o Tribal Fusion Bellydance. Esse estilo trouxe o que faltava na dança do ventre para mim. Finalmente Lilith dava as mãos para Afrodite e, juntas, mostraram-me as duas faces da bailarina interior... O dia e a noite, a luz e a sombra, a lua nova e a cheia, ou simplesmente o Poder Íntegro da Serpente que habita todas nós.
Eu e Kiki formamos uma dupla, a WOLFOX, e começamos não só as pesquisas como também a nos apresentar timidamente, mas procurando mostrar com sinceridade o que sabemos, trabalhando com nossas limitações e procurando evoluir sempre, mesmo que devagar. A maravilhosa e competente Mariana Quadros é nossa professora e também participamos de alguns workshops, dois deles com a condução de Sharon Kihara, uma das melhores do mundo.
Toda essa caminhada tem me dado muito prazer e me aberto portas em diversos lugares, como por exemplo, levar a espiritualidade feminina a grupos e locais onde a exposição com a linguagem da dança facilita o entendimento do sagrado. Criei uma dinâmica inspirada em conhecimentos que tive o privilégio de ter recebido e o resultado tem sido maravilhoso. A melhor satisfação é receber os depoimentos e olhares de mulheres que, após a prática, afirmam que "voltaram a ser o que realmente são, mas tinham se esquecido".
Saber que todas as mulheres são belas, saber que todos os corpos são sagrados, saber que em nós há uma deusa da dança pronta para nos levar por uma jornada cheia de cores claras e escuras, dançar e descobrir que os casulos feitos de medo podem se metamorfosear em lindas borboletas feitas de aceitação e confiança, é mágico! Meu processo de aprender, e ensinar participar de alguns passinhos (de dança) dessas mulheres, me emociona e me enche de inspiração para querer ir cada vez mais fundo na dança e em mim mesma e, com isso, ter capacidade de voar cada vez mais alto.
A dança sabiamente não faz cair todos os véus, mas é uma ferramenta sagrada para (re)aprendermos a transformar muitos deles em asas!
Beijos e caminhada florida, com muita dança, para todas nós!


Patricia Fox
Especialista em Espiritualidade e Mitologia Femininas. Graduanda de Licenciatura em Filosofia. Coordena cursos, círculos de mulheres e atendimentos terapêuticos destinados ao Resgate da Sabedoria Ancestral e desenvolvimento do Feminino Essencial. Criadora do método THEATERAPIA (Terapia da Deusa) onde mescla seus conhecimentos como astróloga, oraculista, terapeuta e iniciada em técnicas de cura e aconselhamento. Integrante de Tradições Espiritualistas, dentre elas: Druídica (por Emma Restall Orr - Inglaterra) e Alexandrian (por Edmundo Pellizari) e Xamânica Celta (John Matthews - Inglaterra).
www.patriciafox.multiply.com
www.heramagica.com.br
www.femininoessencial.com.br
patfoxy@gmail.com
SÃO PAULO/SP

Fotos: Arquivo pessoal
Fonte: Absoluta

Beauvoir e os paradoxos do feminino

Ao trazer para a filosofia a figura do feminino, Simone de Beauvoir rompe com a presumida neutralidade da tradição metafísica

Por Magda Guadalupe dos Santos - Para a revista Cult (março 2009)

Reler Simone de Beauvoir hoje pressupõe compreender que a singularidade de seu pensamento não foi exaurida de sua amplitude interpretativa. Os temas presentes em seus escritos, como a ambivalência da liberdade e a ambiguidade da subjetividade demonstram a pertinência de um contínuo envolvimento do século 21 na reinvenção da aventura humana. O que ainda nos surpreende na leitura de Beauvoir é que seus textos apontam para a descoberta da existência como metapergunta, como uma indagação acerca da condição humana que problematiza a própria consciência e a possibilidade de seu perguntar.


Simone de Beauvoir ao lado do filósofo e escritor Jean-Paul Sartre

É no intento de vasculhar arquétipos e estigmas da mesmidade em que se assenta a nossa cultura que seu pensamento merece ser ressaltado, sobretudo no que concerne às análises sobre o ser-mulher em sua dimensão de alteridade absoluta no contexto cultural do Ocidente. Ao trazer para o horizonte da filosofia a figura do feminino, Beauvoir rompe com a presumida neutralidade e universalidade dos cânones da tradição metafísica.

Como ressalta Françoise Rétif, Beauvoir ocupa um lugar difícil e mesmo ambíguo na linhagem dos filósofos, na medida em que tenta a "articulação da tradição e do futuro". Isso é válido para O segundo sexo, publicado em 1949, mas também para o conjunto de sua obra, em que, dialeticamente, os ensaios conceituais se somam às práticas de uma intelectual engajada. Pensar o idêntico e o contraditório, o igual e o diferente, num mesmo plano valorativo, é o seu grande desafio teórico-político.

Estampas simbólicas do tempo
Em seu percurso crítico, denominado por Sonia Kruks como um "realismo dialético", Beauvoir aborda o feminino como meio de quebrar a suposta imagem de neutralida-de e de verdade que a tradição cunhara sob a roupagem de um discurso filosófico universal, sempre carregado de forte dicção patriarcal. Sua preocupação é evidenciar que, no percurso de uma tradição bimilenar, as relações entre o mesmo e o outro, o igual e o diferente, o masculino e o feminino orientaram-se por valores forçados, cunhados por preceitos heterônomos e transmitidos como naturais.

Em O segundo sexo, ao se referir aos estigmas cravados nas estampas simbólicas do tempo, ela observa como o masculino se alçou como o Absoluto; e o feminino como o Outro. Sua análise visa explicitar os paradoxos do feminino; tomando como modelo a dialética do Senhor e Escravo, na qual se evidencia a necessidade que uma consciência tem, ao se afirmar como a verdade, de assumir o outro como submisso. Beauvoir ressalta, todavia, a exigência de reciprocidade, a ser lida no próprio texto de Hegel, na medida em que a pretensão de uma das consciências encontra resistência, oposição e um similar intento na parte alheia. Tal dialética, trazida às relações de gênero, demonstra sempre o registro - lógico e ontológico - da identidade, acima da contradição. O diferente (o outro, o feminino) manifesta-se apenas como um dado simbólico, ou, na terminologia hegeliana, como um momento transitório, a ser subsumido na ideia absoluta da síntese totalitária, não apenas do saber e do ser, mas da própria justificação da existência. No traçado da história, essa síntese indica que os valores masculinos se impõem como indiscutíveis, abafando a exigência de reciprocidade das relações de gênero, pois o feminino fica relegado a uma dimensão de "alteridade pura".

Para Beauvoir, a querela entre os gêneros - que ela denomina, em O segundo sexo, de "relação dos dois sexos" - pressupõe a indagação sobre aquilo que é próprio de cada um. Assim, antes de tudo, para além de toda síntese, há de se perguntar: o que é ser mulher? Não seria algo determinado por um conjunto de fatores culturais que fazem dela um ser atrelado a imposições ditas naturais, que, todavia, não passam de sociais e morais? Um ser em contínua menoridade, por se sujeitar, inclusive, a ser cúmplice de sua própria desigualdade?

Foto: Fundação Getúlio Vargas - CPDOC/Coleção Castilho Cabral

A única mulher em meio aos formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, em 1927

Descolonização da mulher
Pensar a autonomia, pensar a liberdade, explicar por que o feminino foi transformado em condição menor, em o outro da cultura, é tentar vasculhar uma trajetória de descompassos e subterfúgios crivados temporalmente. Repensar essa trajetória implica tentar modificá-la e buscar instaurar o lugar da reciprocidade no contexto das relações humanas, compreendendo alteridade e identidade num mesmo patamar axiológico. A partir da radicalização das questões ontológicas, expressas no campo da existência, seu pensamento vai ganhando dimensão política de relevo.

Em 1º de março de 1976, comentando a instauração, em Bruxelas, do Tribunal Internacional de Crimes contra as Mulheres, Beauvoir escreve na revista Le Nouvel Observateur: "Por si mesmo, o Tribunal de Bruxelas é um ato. Pela solidariedade internacional que criará entre as mulheres, anuncia muitos outros. Dada a amplitude que tomará, graças a ele, o processo de descolonização da mulher, eu penso que é preciso considerá-lo como um grande acontecimento histórico".

Sua preocupação com os paradoxos do ser-mulher, que envolvem a condição feminina e os acontecimentos que ordenam o tempo, amplia a dimensão do conceito de humanidade e propõe a indagação acerca da permanência de paradigmas históricos que ainda prevalecem, segundo os quais a racionalidade e a normalidade se apresentam sob a feição do masculino, enquanto a irracionalidade e a patologia são estigmatizadas na esfera própria do feminino.

Os apontamentos de Beauvoir são sempre atuais, comprovando que o discurso supostamente neutro da filosofia e das ciên-cias necessita constantemente de revisão. Isto, para não cair em lugares-comuns, relegando o outro, o diferente, a uma instância de solidão, em que cada sujeito fala sozinho num mundo de solitários indivíduos travestidos de homens e de mulheres.