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Estudiosa das Tradições e Espiritualidade Femininas, Mitos, Contos de Fadas, Eco-feminismo e outros temas ligados ao Universo das Mulheres. Uma das precursoras e divulgadora da cultura celta e divino feminino no Brasil (há cerca de 17 anos desenvolve trabalhos na área). Em 1999, esteve na Irlanda onde teve a oportunidade de visitar e vivenciar os locais sagrados de nossos ancestrais celtas. Integrante de Tradições Espiritualistas, dentre elas: Druídica (por Emma Restall Orr - Inglaterra) e Alexandrian (por Edmundo Pellizari) e Xamânica Celta (John Matthews - Inglaterra) Nas ARTES: Praticante da Sagrada Dança do Ventre e Yoga. Atualmente estuda o estilo TribalFusion Bellydance. Cantora, baterista e guitarrista.

segunda-feira, junho 21, 2010

O retorno de Maria Madalena

O Código Da Vinci, de Dan Brown, logrou níveis crescentes de sucesso internacional e impressionante audiência, com sua história brilhantemente tecida em torno de sociedades secretas, simbolismo esotérico e lendas do Santo Graal. Na base, a noção, antes herética, de que Maria Madalena fora consorte e parceira sexual de Jesus, e de que sua descendência se tornara uma linhagem sanguínea secreta estendendo-se da Idade Média aos tempos modernos. ‘O maior encobrimento da História da humanidade’ (pág. 236 – versão em português), – nas palavras de Brown – intrigou Cristãos de diversos matizes, assim como a milhares de agnósticos que se comprazem em uma boa teoria conspiratória.

Uma grande quantidade de livros e DVDs tem surgido, que variam de refutações esnobes e eruditas Católicas e Fundamentalistas a novos tratados que estabelecem conexões esotéricas com os Templários e Cathars, Leonardo, os mistérios de Ísis, Tantra e outros. Conforme a edição da revista Newsweek que teve Maria Madalena como sua reportagem de capa em novembro de 2003, o website magdalene.org recebe milhares de visualizações por dia. Pelo mundo todo, grupos de discussão, salas de chat e seminários debatem as controvérsias de O Código Da Vinci, de Brown, as enunciações obscuras do Evangelho Gnóstico de Maria (Madalena) e todo tipo de intuições e fantasias sobre quem essa mulher realmente foi, compilados a partir de romances, literatura esotérica e, não menos frequentemente, seus próprios sonhos.

Embora a maior parte das polêmicas idéias históricas sobre a relação de Jesus com Maria Madalena e sobre o Sangreal como um código para a linhagem sangüínea sagrada (ie Sang Real) tenha sido proposta em 1982, no extraordinariamente bem sucedido Holy Blood, Holy Grail, (Santo Sangue, Santo Graal) de Messrs Baigent, Leigh e Lincoln, só agora Cristãos de todos os matizes, que desprezaram o primeiro livro, estão devorando avidamente as patentes heresias de Brown – um importante best-seller, mesmo na conservadora França Católica, por exemplo.


A Heroína Celebrada

O que mudou desde 1982? Por que de repente Madalena é a garota de capa de uma revista que circula o mundo e a nova heroína de teólogos católicos progressistas como Karen King e Esther de Boer?

Uma das razões para a popularidade de Madalena é que atitudes feministas não estão mais restritas a intelectuais da Igreja como King e de Boer, mas alcançam também as mulheres comuns – e não poucos homens. Assim, milhões de mulheres passaram a questionar a misoginia e o puritanismo de uma Igreja patriarcal que, há muito, tem marginalizado Madalena ou a transformado em bode expiatório, em função de sua flagrante sexualidade. Por exemplo, a crueldade escandalosa das lavanderias de “Madalena”, onde mulheres “perdidas” ou mães solteiras eram aprisionadas ou abusadas, veio recentemente a público num poderoso filme.

De objeto de pia piedade, Madalena tem se transformado numa heroína feminista celebrada, um novo modelo para a mulher independente e apaixonada. Na verdade, as perspectivas históricas estão sendo revistas, pois como escreve Esther de Boer: “Descobrimos que, no curso da história, Maria Madalena sempre desfrutou de grande popularidade, mas o interesse estava muito mais em sua sexualidade do que em seus testemunhos... [Ela] atravessou a história, acima de tudo, como uma mulher atraente e muito pecadora, que, graças a Jesus, foi convertida e arrependeu-se”. Embora historiadores modernos da Igreja encarem o rótulo de “prostituta arrependida” como uma tática difamatória e uma interpretação distorcida dos Evangelhos, eles reconhecem o poder de suas imagens na base da consciência cristã. Antes do início do Século XIX, à medida que artistas independentes ficavam mais arrojados, pinturas de mulheres mundanas e sensuais com flamejantes cabelos vermelhos e corpos voluptuosos começaram a aparecer. São elas Madalenas, apaixonadamente devotadas a seus mestres, mas cujo Eros manifesto foi com fino gosto sublimado, tomando uma igualmente apaixonada feição de devoção espiritual.

A Dissociação Madona/Prostituta

No entanto, para os puritanos e patriarcas que dominaram o Cristianismo, essa “mulher escarlate”, que esteve tão perto do Salvador, é sempre motivo de vergonha e constrangimento. Resta ainda o fato de que os Padres da Igreja Cristã antiga ficavam profunda e patologicamente perturbados pela sexualidade das mulheres. Para eles, sexo era o mais aterrador dos pecados, resultante direto da transgressão de Eva no Jardim do Éden. Justamente a partir dessa paranóia em relação à carne, surgiu o mito doutrinário de Maria a Mãe milagrosamente casta e virgem. Pelo poder do Nascimento Virginal e de uma Igreja de sacerdotes celibatários e freiras virgens, esperavam reverter o pecado original de Eva e fugir das tentações do Demônio no mundo altamente licencioso da Roma Antiga, com seus cultos ubíquos, eróticos e orgiásticos. “Na raiz da obsessão dos Padres com a virgindade de Maria”, escreve Marina Warner em Alone of All her Sex, “estava a definição dos Padres sobre o que era o mal: a sexualidade representava não somente o mais grave dos perigos, mas também a imperfeição fatal. E viam a virgindade como seu antagonista e conquistador”.

O resultado tem sido uma renitente ambivalência em relação a todo feminino conectado com a fé Cristã, uma obsessão com a transgressão sexual e uma misoginia nas Igrejas, as quais não se cansam de denegrir, diminuir e desempoderar as mulheres. O medo que os Padres sentiam das mulheres deixou uma profunda ferida arquetípica – o clichê madona x prostituta – que ainda hoje assombra a psique ocidental. Apesar da influência iluminadora de Freud e Kinsey, da liberação sexual e da ordenação de mulheres, essa ferida está longe de ser curada.

Para um observador de padrões da história religiosa, a re-emergência e popularidade da figura de Madalena, com certeza, representa pelo menos uma compensação saudável para a condição atual da Igreja Católica e sua atitude medieval em relação ao sexo e às mulheres tristemente simbolizada no combalido Pontífice João Paulo II. Suas opiniões sobre contracepção, mulheres e sexualidade são tão reacionárias que milhares de fiéis estão abandonando a Igreja. Na Inglaterra, dos 15 milhões de Católicos descendentes de famílias irlandesas, somente 4 milhões mantêm a fé, e, desses, somente 1 milhão vai à missa – metade dos números computados em 1960. Nos Estados Unidos, a quarta maior população católica do mundo, casamentos de Católicos celebrados diante de um padre foram reduzidos à metade desde 1960. Esses dados são de John Cornwall, autor da recente biografia crítica The Pope in Winter (O Pontífice no Inverno): Cornwall atribui boa parte do declínio da Igreja à recusa do Papa em sancionar o controle da natalidade, que ele considera um mal irremediável mesmo para vitimas de AIDS, e em enfrentar os horrores da pedofilia – 11.000 menores molestados por padres Católicos nos Estados Unidos entre 1950 e 2002; certamente um grave sintoma das grandes falhas que há muito existe na Igreja. Cornwall assim escreve sobre a atitude do Papa em relação às mulheres: “João Paulo insistia que a cama matrimonial de uma mulher católica era um lugar de provação e sofrimento, como a cruz de Jesus Cristo. Em todos os momentos de sua vida ele identificou a maternidade com auto-sacrifício e morte”. Além disso, milhões de mulheres divorciadas, assim como as que fazem uso de anticoncepcional, tecnicamente vivem em pecado, segundo o Papa.

O Surgimento do Feminino Divino

Como uma reação a tudo isso, há por toda parte uma enorme ânsia pelo feminino divino, agora invadindo a sociedade ocidental e em vias de varrer de vez e para sempre os fundamentos patriarcais patológicos da Igreja Cristã. Mulheres de todo o mundo, com justeza, anseiam por lhes ver conferida sua verdadeira dignidade como seres apaixonados e criativos, iguais aos homens e não submetidas a eles. E a imagem, que como Afrodite surge da espuma do mar, não é outra senão aquela de Maria Madalena, a Deusa perdida do Cristianismo em suas diversas formas.

“A velha ordem muda, dando lugar ao novo / E Deus se satisfaz de várias formas / A menos que um bom costume corrompa o mundo”, escreveu Tennyson em Idílios do Rei.

Assim, como uma reação à decadência sexual e estreiteza espiritual de tantas igrejas Cristãs, é para Maria Madalena, até então tão marginalizada e mal-representada na história da Igreja, que muitos estão se voltando, imaginação despertada por uma história de suspense e conspiração. Graças a muitas informações genuinamente ilustradas que Dan Brown coletou (ao lado de outras provenientes de pura e algumas vezes ultrajante especulação), a figura poderosa dessa mulher provocante está outra vez tornando-se viva na imaginação do nosso tempo.

Os textos Gnósticos recentemente descobertos The Nag Hammadi Library (A Biblioteca de Nag Hammadi) deixam mais claro do que nunca que Maria Madalena deve ter tido um papel proeminente, no círculo dos primeiros apóstolos, como a principal confidente de Jesus, chamada de seu koinomos, palavra grega que tecnicamente significa ‘consorte’ ou ‘companheira’, sugerindo uma relação sexual. E, da mesma forma que no rejeitado texto Gnóstico Pistis Sophia, ela se destaca como a principal intérprete da revelação de Jesus do cosmos da luz, ‘aquela que entendeu o Todo’. Aqui, como em outros casos, na figura de Santa Sofia – o feminino transcendente de muitos sistemas Gnósticos – ela repercute o papel sagrado da Sabedoria no Velho Testamento.

Numa passagem muito citada do Evangelho de Felipe (Gnóstico), sua intimidade com Jesus é revelada como segue:

E a companhia de Maria Madalena a quem [Jesus] amava mais que [todos] os discípulos, [e ele] costumava beijá-la frequentemente [na boca]. Os outros discípulos....disseram a Jesus, ‘Por que você a ama mais que a todos nós?’ O salvador respondeu: ‘Por que eu não os amo como a ela? Quando um homem cego e um homem que vê estão ambos juntos no escuro, eles não são diferentes um do outro. Quando a luz chega, então ele que vê verá a luz, e ele que é cego permanecerá no escuro’. Grande é o mistério do casamento! Pois que sem ele, o mundo não existiria.

Identidade Confusa

Talvez fosse inevitável que os ensinamentos dos Gnósticos tivessem que ser rapidamente excluídos como heréticos pelos Padres da Igreja, em favor de um cânon que maximizasse o status da Virgem Maria (apesar do fato de que ela raramente seja mencionada nos quatro Evangelhos) e minimizasse o papel de Madalena, principal testemunha da Ressurreição, e também o papel da mulher em geral na Igreja. Como nos lembra Susan Haskins em sua investigação admiravelmente ampla sobre as imagens mutáveis de Maria Madalena ao longo dos séculos, a pecha ‘prostituta penitente’ provém de uma confusão na identidade de Madalena, aquela que Jesus exorciza dos sete demônios, com uma mulher sem nome, a pecadora que unta os pés de Jesus com óleo de uma jarra de alabastro (nunca nos foi dito qual era o seu ‘pecado’; como era de se esperar, os Padres supuseram que fosse sexual). Uma outra Maria, Maria de Betânia, irmã de Lázaro, funde-se na composição de imagens de Madalena que derivou dos quatro evangelhos canônicos. Finalmente foi transformada em dogma pelo Papa Gregório do Século VI.

Ao tornar Madalena, uma mulher tão intima de Jesus, na pecadora preeminente, os Padres acabaram por estigmatizá-la, chamando-a, por associação, de Segunda Eva, ‘o portal do Demônio’ (Tertualiano). Os Padres da Igreja que criaram essa imagem composta difamatória foram os mesmos que insistiram renitentemente no celibato dos sacerdotes (para proteger os sacramentos da contaminação de mulheres em período de menstruação). Por outro lado, a Igreja Ortodoxa, a qual insiste que sacerdotes devam casar-se, do mesmo modo que os rabinos judeus se casam, é a que tem sempre defendido Dias Sagrados independentes para três mulheres diferentes: Maria Madalena, Maria de Betânia e a Cortesã Penitente (ou pecadora).

Hoje podemos ver como, ao excluir as mulheres, antigos fanáticos como Orígenes, Agostinho, João Crisóstomos e Jerônimo, em seu pavor da sexualidade, criaram uma cisão psíquica infeliz na alma ocidental. Em um estudo sobre o arquétipo da Afrodite ferida, no livro The Goddess Within
(A Deusa Interior), eu comentei ‘Ao longo dos séculos, uma série lúgubre de equacionamentos foi-se estabelecendo na mente dos Cristãos: Mulher = Terra = Sujeira = Sexo = Pecado. A queda do homem deveu-se a Eva, e a Igreja nunca deixou de advertir os homens de que é a mulher que irá levá-los ao inferno...’ (p. 125, versão em português).

Reagindo aos evidentes excessos da religião romana decadente, com suas orgias sagradas e remanescentes do templo ‘prostituição’ (uma denominação imprópria) que repercutia Suméria e Babilônia, os padres da Igreja buscavam empreender campanhas em favor de uma pureza ascética e vilipêndio de tudo que tivesse relação com o corpo. Um exemplo típico é o seguinte alerta de Clemente de Alexandria: ‘A armadilha do Demônio para os homens, especialmente para os jovens, está no corpo’. Antes do início do Século IV, muitos Cristãos já se haviam recolhido em comunidades desérticas ou se tornado eremitas. D. H. Lawrence, amargurado, escreveu na sua última obra, Apocalipse: ‘O temor Cristão da perspectiva pagã lesou a totalidade da consciência do homem’. Emma Jung, em seu estudo sobre a lenda do Graal, viu o Rei Pescador, dolorosamente ferido na genitália, como a imagem da Sombra do homem Cristão, do mesmo modo que Carl Jung viu na emergência do estereótipo da feiticeira medieval uma conseqüência direta da supressão por parte da Igreja celibatária de tudo o que fosse feminino, especialmente na bela civilização provençal que a Igreja exterminou na brutal Cruzada albigense.

Essa guerra perseguiu e massacrou meio milhão de pessoas da fé Cathar, um ramo do Cristianismo Gnóstico que reverenciava as mulheres como iguais aos homens e que se alastrou, a partir dos Balcãs, para a Itália e Sul da França nos Séculos XI e XII. Seus líderes carismáticos, les Bonhommes, converteram muitos à sua fé. Ezra Pound acreditava que o Catharismo ter-se-ia fundido com as sensuais cortes provençais de Occitânia e seu palaciano culto trovador de la Donna – a Dama – diversamente do que difundia a propaganda da Igreja, que pintava o Catharismo como apartado do mundo e maniqueísta, uma pecha que sobrevive ainda hoje.


Madalena na Provença

Não foi por acaso que as lendas de Maria Madalena que chegaram à Provença depois da queda de Jerusalém também se tornaram populares na França dos Séculos XI e XII. Graças ao entusiasmo de Eleanor de Aquitânia pelas suntuosas cortes muçulmanas que encontrou em Antioquia ainda na Segunda Cruzada, floresceu na França uma rica cultura artística e musical que assimilou e promoveu uma revitalização Venusiana das velhas lendas matrifocais e romances da mitologia Celta – Artur, Guinevere e Lancelot; Tristão e Isolda. Um breve mas luminoso retorno da devoção à Deusa ocorreu de forma dissimulada; não somente sob a forma das heroínas Celtas e das damas do trovador, mas também como as magníficas madonas negras e vierges en majesté de Auvergne – que alguns diziam que eram estátuas de Ísis; e outros sugeriam que fosse Perséfone durante sua estada na região dos mortos. Outra vez percebemos a sombra (ou o lado feminino sagrado reprimido) do Cristianismo emergindo nessas imagens que falam de uma Deusa perdida.

O povo da França medieval estava, assim, por toda parte, receptivo a Maria Madalena e a tomou como sua, utilizando seu nome para designar muitas de suas igrejas. Madalena tem ricas associações lendárias em Marselha e entorno. De acordo com conjunto das tradições populares medievais, Maria Madalena, juntamente com Maria Jacobé e Maria Salomé (mães dos dois Jaimes do Evangelho), desembarcou (de sua frágil barca) perto da Marselha romana, com Marta, Lázaro e sua serva negra Sara (reverenciada até hoje como a Madona Negra da România, possivelmente uma sobrevivente na Europa da Deusa Kali-Sara). Judeus hostis expulsaram-nas da Terra Santa de volta para o mar em um barquinho sem leme que milagrosamente chegou a Provença.

Diz-se que Madalena converteu muitos ao Cristianismo, na Marselha, com sua pregação apaixonada. Teria ela pregado nas velhas catacumbas próximas ao antigo porto grego? Será que não foi ela própria objeto de uma tradição misteriosa perdida semelhante à de Perséfone? Segundo contam lendas posteriores, ela se retirou para uma caverna sagrada localizada no alto do maciço de Sainte-Baume, não muito longe da cidade. E ali teria terminado sua vida em oração. A caverna ainda é um local sagrado, mas para nós hoje só é possível tentar adivinhar quão longinqüamente no passado pagão esse teria sido também um lugar de poder.

As relíquias de Maria acabaram por vir repousar na basílica de St Maximin-Ste Baume (Bálsamo Sagrado) e foram muito veneradas durante a Idade Média – até que em Vézelay, Borgonha, a rival Abadia de Santa Madalena reivindicou direitos sobre seus restos! O culto a relíquias nessa época prestou-se a todo tipo de fraude, uma vez que o povo crédulo é sempre ávido por ‘sinais e milagres’ de seus santos preferidos.

Assim como ocorre em relação a sua permanência na França, existem especulações fascinantes de que a Madalena teria sido uma iniciada em um dos antigos cultos da Deusa, possivelmente aquele da Ísis egípcia. Quando Jesus exorciza os sete demônios da Madalena dos Evangelhos, algumas pessoas, como Lynn Picknett, vêem nisso uma referência secreta ao ritual esotérico de purificação dos sete chakras do corpo energético. Pode também ser uma referência aos ‘Sete Portais’ da descida de Innana, do mito sumério, ao mundo subterrâneo.

O Despertar para a Deusa

Eu acredito que o encanto que Maria Madalena provoca em tantos de nós hoje se deve ao fato de que ela é uma figura complexa e plenamente humana, uma mulher do mundo que viveu uma vida de ‘pecadora’, desfrutou dos prazeres da riqueza e do sexo principalmente, e teve uma relação com o homem mais fascinante da literatura religiosa ocidental. Se é ou não possível para nós conhecermos com precisão histórica os pormenores de sua vida mais do que conhecemos os detalhes da vida de Jesus é, no fim, irrelevante; são as fantasias sobre Maria Madalena e sua relação com Jesus que produzem profunda impressão na consciência moderna, especialmente na das mulheres.

Muitas mulheres hoje, desiludidas e insatisfeitas com as Igrejas, podem começar a admitir para si próprias que, tanto espiritualmente quanto eroticamente, anseiam por mais que a pureza da Virgem e a via crucis, apesar dos séculos de propaganda nesse sentido, principalmente por parte de teólogos do sexo masculino. Trazer a figura de Maria Madalena para a vanguarda do debate público permite que mulheres de toda parte – e não poucos homens – sintam-se habilitados a questionar sua fé sem medo do ridículo ou da vergonha. Isso porque as mulheres, além de desejarem ardentemente uma figura de carne e osso no cerne de sua fé, elas também anseiam por um Jesus de carne e osso que seja plenamente capaz de relacionar-se com sensibilidade e paixão sexual. Um Jesus que seja capaz não apenas de amaldiçoar os vendilhões, passear pelas ruas empoeiradas da Galiléia ou ser visto em bares cercado das prostitutas locais, mas um Jesus que tenha uma amiga e parceira. E que parceira! Digna, forte e orgulhosa; bonita, apaixonada e sábia. A própria personificação de Sofia, o principio divino que transcende até mesmo o Logos de seu Mestre e consorte. Quando, mais tarde, ela se apresenta e fala, populações são arrebatadas por suas palavras, como ocorreu em Marselha. Mesmo o mais brilhante dos discípulos do sexo masculino, segundo nos diz o Evangelho de Felipe, silenciam perante sua doutrinação apaixonada. Somente o teimoso e notório tolo Pedro se ressente e finalmente rejeita o espantoso carisma de Madalena.

Milhões de pessoas foram recentemente estimuladas pelas idéias de O Código Da Vinci, uma tendência que promete crescer com a adaptação cinematográfica de Ron Howard. Parece que nós, como cultura, estamos suficientemente maduros neste momento para decifrar esse momentoso enigma da ‘deusa perdida’. O fenômeno do retorno de Madalena deve ser visto como o despertar profundo na moderna consciência da idéia de que Deus e sua encarnação humana e filho, Jesus, não pode mais ser separado de sua contraparte e parceira feminina. Deus Pai deve mais uma vez ser igualado à Deusa Mãe; o Filho-amante encarnado deve de novo ser igualado à Filha-amante encarnada. Depois de ser suprimida, denegrida e perseguida por dois mil anos, a Grande Deusa finalmente retorna em toda sua beleza, sabedoria e glória – como Madalena – e eu gosto de pensar que em suas mãos ela carrega o Graal, que nos pode curar a todos.

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Esther de Boer, Maria Madalena: Além do Mito [Trinity Press, 1997]
Marina Warner, Alone of all Her Sex: the Myth and Cult of the Virgin Mary [London, 1976]
Evangelho de Felipe, parte da Biblioteca de Nag Hammadi, revisada por James R. Robinson [EJ Brill, 1988]
Susan Haskins, Maria Madalena: Mito e Metáfora. [Harper Collins, 1993]
Lynn Picknett, Maria Madalena. [Constable and Robinson Ltd, 2003]
Peter Mullan, As Irmãs de Madalena (filme) Miramax 2002

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Roger Woolger, Ph.D., terapeuta Junguiano e professor, criou a Terapia chamada Deep Memory Process (Processo de Memória Profunda). Tem-se dedicado ao estudo de religiões e misticismo e atualmente lidera excursões de peregrinação a localidades de poder na França, dedicando particular atenção ao trabalho de apresentar às pessoas a civilização da Provença medieval.

Mais informações: http://www.magdalenetours.com/portuguese

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