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Estudiosa das Tradições e Espiritualidade Femininas, Mitos, Contos de Fadas, Eco-feminismo e outros temas ligados ao Universo das Mulheres. Uma das precursoras e divulgadora da cultura celta e divino feminino no Brasil (há cerca de 17 anos desenvolve trabalhos na área). Em 1999, esteve na Irlanda onde teve a oportunidade de visitar e vivenciar os locais sagrados de nossos ancestrais celtas. Integrante de Tradições Espiritualistas, dentre elas: Druídica (por Emma Restall Orr - Inglaterra) e Alexandrian (por Edmundo Pellizari) e Xamânica Celta (John Matthews - Inglaterra) Nas ARTES: Praticante da Sagrada Dança do Ventre e Yoga. Atualmente estuda o estilo TribalFusion Bellydance. Cantora, baterista e guitarrista.

segunda-feira, junho 21, 2010

Beauvoir e os paradoxos do feminino

Ao trazer para a filosofia a figura do feminino, Simone de Beauvoir rompe com a presumida neutralidade da tradição metafísica

Por Magda Guadalupe dos Santos - Para a revista Cult (março 2009)

Reler Simone de Beauvoir hoje pressupõe compreender que a singularidade de seu pensamento não foi exaurida de sua amplitude interpretativa. Os temas presentes em seus escritos, como a ambivalência da liberdade e a ambiguidade da subjetividade demonstram a pertinência de um contínuo envolvimento do século 21 na reinvenção da aventura humana. O que ainda nos surpreende na leitura de Beauvoir é que seus textos apontam para a descoberta da existência como metapergunta, como uma indagação acerca da condição humana que problematiza a própria consciência e a possibilidade de seu perguntar.


Simone de Beauvoir ao lado do filósofo e escritor Jean-Paul Sartre

É no intento de vasculhar arquétipos e estigmas da mesmidade em que se assenta a nossa cultura que seu pensamento merece ser ressaltado, sobretudo no que concerne às análises sobre o ser-mulher em sua dimensão de alteridade absoluta no contexto cultural do Ocidente. Ao trazer para o horizonte da filosofia a figura do feminino, Beauvoir rompe com a presumida neutralidade e universalidade dos cânones da tradição metafísica.

Como ressalta Françoise Rétif, Beauvoir ocupa um lugar difícil e mesmo ambíguo na linhagem dos filósofos, na medida em que tenta a "articulação da tradição e do futuro". Isso é válido para O segundo sexo, publicado em 1949, mas também para o conjunto de sua obra, em que, dialeticamente, os ensaios conceituais se somam às práticas de uma intelectual engajada. Pensar o idêntico e o contraditório, o igual e o diferente, num mesmo plano valorativo, é o seu grande desafio teórico-político.

Estampas simbólicas do tempo
Em seu percurso crítico, denominado por Sonia Kruks como um "realismo dialético", Beauvoir aborda o feminino como meio de quebrar a suposta imagem de neutralida-de e de verdade que a tradição cunhara sob a roupagem de um discurso filosófico universal, sempre carregado de forte dicção patriarcal. Sua preocupação é evidenciar que, no percurso de uma tradição bimilenar, as relações entre o mesmo e o outro, o igual e o diferente, o masculino e o feminino orientaram-se por valores forçados, cunhados por preceitos heterônomos e transmitidos como naturais.

Em O segundo sexo, ao se referir aos estigmas cravados nas estampas simbólicas do tempo, ela observa como o masculino se alçou como o Absoluto; e o feminino como o Outro. Sua análise visa explicitar os paradoxos do feminino; tomando como modelo a dialética do Senhor e Escravo, na qual se evidencia a necessidade que uma consciência tem, ao se afirmar como a verdade, de assumir o outro como submisso. Beauvoir ressalta, todavia, a exigência de reciprocidade, a ser lida no próprio texto de Hegel, na medida em que a pretensão de uma das consciências encontra resistência, oposição e um similar intento na parte alheia. Tal dialética, trazida às relações de gênero, demonstra sempre o registro - lógico e ontológico - da identidade, acima da contradição. O diferente (o outro, o feminino) manifesta-se apenas como um dado simbólico, ou, na terminologia hegeliana, como um momento transitório, a ser subsumido na ideia absoluta da síntese totalitária, não apenas do saber e do ser, mas da própria justificação da existência. No traçado da história, essa síntese indica que os valores masculinos se impõem como indiscutíveis, abafando a exigência de reciprocidade das relações de gênero, pois o feminino fica relegado a uma dimensão de "alteridade pura".

Para Beauvoir, a querela entre os gêneros - que ela denomina, em O segundo sexo, de "relação dos dois sexos" - pressupõe a indagação sobre aquilo que é próprio de cada um. Assim, antes de tudo, para além de toda síntese, há de se perguntar: o que é ser mulher? Não seria algo determinado por um conjunto de fatores culturais que fazem dela um ser atrelado a imposições ditas naturais, que, todavia, não passam de sociais e morais? Um ser em contínua menoridade, por se sujeitar, inclusive, a ser cúmplice de sua própria desigualdade?

Foto: Fundação Getúlio Vargas - CPDOC/Coleção Castilho Cabral

A única mulher em meio aos formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, em 1927

Descolonização da mulher
Pensar a autonomia, pensar a liberdade, explicar por que o feminino foi transformado em condição menor, em o outro da cultura, é tentar vasculhar uma trajetória de descompassos e subterfúgios crivados temporalmente. Repensar essa trajetória implica tentar modificá-la e buscar instaurar o lugar da reciprocidade no contexto das relações humanas, compreendendo alteridade e identidade num mesmo patamar axiológico. A partir da radicalização das questões ontológicas, expressas no campo da existência, seu pensamento vai ganhando dimensão política de relevo.

Em 1º de março de 1976, comentando a instauração, em Bruxelas, do Tribunal Internacional de Crimes contra as Mulheres, Beauvoir escreve na revista Le Nouvel Observateur: "Por si mesmo, o Tribunal de Bruxelas é um ato. Pela solidariedade internacional que criará entre as mulheres, anuncia muitos outros. Dada a amplitude que tomará, graças a ele, o processo de descolonização da mulher, eu penso que é preciso considerá-lo como um grande acontecimento histórico".

Sua preocupação com os paradoxos do ser-mulher, que envolvem a condição feminina e os acontecimentos que ordenam o tempo, amplia a dimensão do conceito de humanidade e propõe a indagação acerca da permanência de paradigmas históricos que ainda prevalecem, segundo os quais a racionalidade e a normalidade se apresentam sob a feição do masculino, enquanto a irracionalidade e a patologia são estigmatizadas na esfera própria do feminino.

Os apontamentos de Beauvoir são sempre atuais, comprovando que o discurso supostamente neutro da filosofia e das ciên-cias necessita constantemente de revisão. Isto, para não cair em lugares-comuns, relegando o outro, o diferente, a uma instância de solidão, em que cada sujeito fala sozinho num mundo de solitários indivíduos travestidos de homens e de mulheres.

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